O levantamento mostra que houve um salto de 58%, em março, para atuais 72% no total de entrevistados que perceberam avanço nos valores dos alimentos no último mês. Além disso, metade dos entrevistados acredita que a economia do País piorou nos últimos 12 meses. Outro foco de preocupação é o endividamento das famílias. A Genial/Quaest mostra que 72% afirmam ter poucas ou muitas dívidas, índice que era de 65% em maio de 2025.
“O ambiente não parece favorável ao governo neste momento. A percepção do eleitorado é que o noticiário continua mais negativo (48%) do que positivo (23%). A percepção da população é que a economia está piorando”, avalia o diretor da Quaest, Felipe Nunes. “O principal motor da piora parece ser o preço dos alimentos nos mercados.”
A pesquisa, que ouviu 2.004 eleitores, indica que o cenário de pressão econômica impacta a tendência de deterioração da popularidade de Lula já observada nos últimos meses. Desde o início do ano, os eleitores que desaprovam a gestão federal passaram de 49% para 52%, numericamente o maior patamar desde julho do ano passado. Já o apoio ao governo recuou de 47% para 43%.
Ao mesmo tempo, Lula perdeu vantagem para seus principais rivais na corrida eleitoral. Pela primeira vez, o senador Flávio Bolsonaro apareceu numericamente à frente de Lula em simulações da Quaest para o segundo turno, embora ambos sigam empatados na margem de erro, de dois pontos percentuais.
“A economia não é suficientemente capaz de prever sucesso ou fracasso eleitoral, mas tem importância na análise. A questão do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) é um exemplo. Uma vez que o brasileiro sente mais o bolso, a tendência é que, nesse cenário de polarização, a economia pode fazer diferença para o grupo de indecisos”, diz a cientista política Carolina Botelho, do INCT/SANI.
Na avaliação do cientista político Murilo Medeiros, da UNB, a “carestia é uma das piores notícias possíveis para qualquer governo em ano eleitoral”.
“Deteriora a imagem do governo e afeta diretamente o humor do eleitor. E eleição, no fim das contas, é decidida muito mais pelo bolso do que pelo discurso do governo ou por indicadores macroeconômicos.”
Amparo
A percepção dos eleitores sobre o preço dos alimentos é confirmada pelos indicadores da economia. A alimentação no domicílio subiu 1,94% nos resultados do IPCA de março. Esse percentual é bastante superior ao 0,23% de fevereiro e o maior desde abril de 2022, quando o índice oficial de inflação do país chegou a 2,59%.
Entre as principais altas de março estão o tomate, a cebola, a batata-inglesa, o leite longa vida e as carnes. Esses produtos estão muito presentes na rotina dos brasileiros, e seus reajustes tendem a gerar maior incômodo na população em relação à inflação.
Nem no fim de 2024 os números eram tão elevados. Na época, a inflação estava tão pressionada que o presidente veio publicamente cobrar medidas dos varejistas para a contenção do preço dos alimentos. Economistas apontam que, mesmo com as medidas para subsidiar combustíveis, o governo não conseguiu evitar as consequências na inflação do fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã em retaliação aos ataques de EUA e Israel, que elevou a cotação internacional do petróleo.
Ainda que o governo tente minimizar o impacto, o aumento dos combustíveis acelerou a inflação em março e segue pressionando preços em abril, na avaliação de varejistas e consumidores. O transporte rodoviário tem impacto sobre os outros setores, principalmente no de alimentos, muito dependente dos caminhões. O custo dos fertilizantes também sofre impacto do conflito no Oriente Médio. (Com informações do jornal O Globo)