Sábado, 11 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 10 de julho de 2026
A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) acionaram a Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol), em busca de informações sobre o missionário norte-americano preso em Viamão (Região Metropolitana de Porto Alegre) como autor do espancamento que resultou na morte de um filho de 3 anos. O objetivo é saber se ele possui antecedentes criminais fora do Brasil, onde reside desde 2017.
Também está no radar das autoridades o período em que a família viveu nos Estados de São Paulo e Santa Catarina, antes de se mudar para uma casa em Águas Claras, distrito do município gaúcho, no início deste ano.
O caso remonta à manhã do dia 3 (domingo), quando os pais levaram Oliver Golden Grayson em estado grave ao Hospital do Município, devido a uma série de lesões. Em cumprimeno de protocolo para situações desse tipo, a equipe médica acionou a Brigada Militar (BM), que realizou a prisão em flagrante do suspeito – medida convertida em preventiva pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) no dia seguinte.
Em depoimento à Polícia Civil, o evangélico de 33 anos admitiu a autoria e mencionou como motivo das agressões a negativa da criança em responder a um cumprimento de “bom dia”. A brutalidade incluiu socos na barriga e peito do menino, que ainda teve a cabeça intencionalmente batida contra o chão – não está descartada a possibilidade de que também tenha sido utilizado algum objeto contundente.
A vítima foi transferida para o Hospital de Pronto Socorro (HPS) da Capital, onde acabou falecendo na madrugada de quinta-feira (9). No mesmo dia, a mãe – nascida no Japão – também foi presa preventivamente, por omissão. Ela já havia autorizado a doação dos órgãos da criança, cujo velório e sepultamento não tiveram detalhes divulgados pelas autoridades.
O missionário deve ser indiciado por homicídio com ao menos três agravantes: motivo fútil, meio cruel e vítima menor de 14 anos, crimes sujeitos à prisão e perda do poder familiar, dentre outras penas. Já a mãe tem a sua situação incerta, pois a Polícia Civil ainda investiga qual o papel por ela desempenhado na dinâmica familiar.
De acordo com a defesa, a mulher estava em outra parte da residência no momento do ataque ao filho e só descobriu o que havia ocorrido quando o marido a chamou, com o Oliver nos braços, para saírem em busca de atendimento. Também atribui a ela o papel de vítima, “sob grave vulnerabilidade no contexto de violência doméstica, física, emocional e espiritual”. A tese é corroborada por um pedido anterior de medida protetiva para a mãe do menino.
O casal tem outros quatro filhos, de 1 a 9 anos. Por determinação do Conselho Tutelar, todos foram encaminhados a uma instituição de acolhimento e, de acordo com o aprofundamento da apuração, ao menos três delas também foram alvo de violência doméstica – há registros em outras cidades brasileiras onde a família já residiu até se mudar para Viamão, há mais de seis meses.
Questionamento
Prefeito de Viamão, Rafael Bortoletti (PSDB) determinou nesta semana a abertura de sindicância sobre eventuais responsabilidades por parte da rede municipal em identificar a situação extrema pela qual passavam os familiares do missionário. Ele avalia que houve falha por parte das autoridades.
Em entrevistas à imprensa, o chefe do Executivo municipal citou registros de que o mesmo menino apresentava hematomas ao ser atendido em um posto de saúde no final do ano passado. A família inclusive passou a ser alvo de acompanhamento pelo Conselho Tutelar.
Desde então, participou de ao menos sete encontros do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). Em janeiro, porém, a criança apresentou fratura em um braço – atribuída pelos pais a uma suposta queda do sofá.
(Marcello Campos)