Sábado, 11 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 11 de abril de 2026
Investigação interna do Banco Central (BC) concluiu que o ex-chefe de Supervisão Bancária Belline Santana simulou dois contratos, que somaram R$ 4 milhões, com um advogado ligado ao Banco Master para receber propina.
A conclusão está no relatório sigiloso da comissão de sindicância patrimonial do BC, encerrada no dia 4 de março. Os contratos foram firmados pelo servidor com a Varajo Consultoria, empresa de Leonardo Palhares, apontado pela Polícia Federal como um dos operadores de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Segundo a comissão, em um dos contratos, Santana recebeu R$ 2 milhões em troca de um estudo de 50 páginas sobre educação financeira, composto basicamente por um resumo de oito artigos acadêmicos e entrevistas de terceiros.
O trabalho tinha como foco a prestação de consultoria e outros serviços para um projeto voltado para conectar jovens de comunidades periféricas ao mercado financeiro.
De acordo com a sindicância, o resultado apresentado não teve produção autoral relevante ou qualquer referência ao nome do ex-chefe de supervisão da autarquia.
Os procuradores do BC afirmaram ser “pouco crível” que alguém pagasse o montante milionário por um material daquela natureza. Segundo eles, o estudo poderia “ser facilmente produzido com o uso de inteligência artificial (IA), ou mesmo solicitado a terceiros, tais como estudantes ou estagiários, a baixíssimo custo”.
A comissão ainda disse que ficou “muito claro” que o investigado não possuía experiência nem os conhecimentos necessários para desenvolver esse tipo de trabalho, muito menos com tal remuneração.
“Se em algum momento (a quantia) fosse paga a alguém para a execução dessa atividade – o que é mesmo duvidoso –, certamente o seria para uma sumidade no assunto”, disse.
A sindicância do BC afirma que o funcionário ocupou importantes cargos e funções, mas os objetos contratados são de uma área do conhecimento mais próxima da sociologia, que não é a especialidade dele.
Procurada, a defesa do empresário afirmou que “o tema está atualmente sob a apreciação do Poder Judiciário e tanto a Varajo Consultores quanto o seu sócio têm cooperado com a Justiça para a apuração da realidade dos fatos”.
Como mostrou a Folha, investigação do Banco Central também mostrou que o ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para ocultar recebimento de propina do Banco Master ou de pessoas ligadas ao grupo.
O segundo contrato firmado por Santana com a Varajo Consultoria tinha como objetivo complementar o estudo realizado e executar um ciclo de palestras no projeto “Jovens Potentes”.
Em oitiva, Santana disse ter sido contratado para implementar o projeto, fazendo a sensibilização de empresas.
Como entrega concreta, segundo ele, houve a criação de uma logomarca para o projeto, a criação de perfis nas redes sociais – LinkedIn e Instagram (com pouco mais de 1.000 seguidores) – e a divulgação da logomarca nas plataformas. O conteúdo com melhor desempenho no Instagram obteve 65 curtidas. Além disso, ele contou ter realizado um webinário, com adesão de apenas 20 pessoas.
“O servidor investigado sequer tinha domínio ou noção exata do próprio objeto do contrato, a constituir forte indício de que o negócio jurídico foi parte de manobra artificiosa para ‘esquentar’ o recebimento de recursos”, disse a sindicância.
Os membros ainda ressaltaram que os contratos foram muito mal elaborados e os produtos entregues não tinham conexão com o compromisso firmado.
A investigação disse ver indícios de que o contrato “foi mero negócio simulado para tentar dar aspecto legítimo ao pagamento ilícito feito ao contratado.”
Segundo o relatório, a Varajo Consultoria, de Palhares, tinha R$ 10 mil de capital social e sede em um espaço de coworking em São Paulo “circunstâncias que seriam incompatíveis com a contratação de um projeto no valor de R$ 4 milhões”.
Palhares também comanda a Super Empreendimentos, investigada pela Polícia Federal sob a suspeita de servir de canal de pagamentos pelo Master a agentes públicos. E é diretor da Solar (Sociedade Organizada Spread of Love and Respect), que tem como embaixadora a filha de Daniel Vorcaro. (Com informações da Folha de S.Paulo)