Segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Lançada em maio, a segunda edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas, registrava, no final de julho, adesão de quase 10 milhões de pessoas

A segunda edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas lançado em maio, registrava, no final de julho, adesão de quase 10 milhões de pessoas, segundo o Ministério da Fazenda. Do ponto de vista da demanda, portanto, trata-se de um grande sucesso, o que não chega a surpreender em uma nação de endividados.

No entanto, “um recorde de adesão não é, por si só, evidência de que o problema estrutural do endividamento foi resolvido”, como bem observaram os pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França no artigo Três meses do Desenrola 2.0: o que os números já mostram, publicado no blog da entidade.

Em análise sobre um período de quase três meses de vigência do programa, que até julho havia permitido a renegociação de R$ 44,1 bilhões em dívidas de famílias e empresas, os pesquisadores destacam que o desenho comportamental do programa provou-se atrativo para os endividados, o que significa que o incentivo para aderir ao Desenrola funciona.

Se antes um cliente com uma dívida de R$ 10 mil conseguiria reduzi-la no máximo para algo como R$ 7 mil ou R$ 8 mil, o desconto de até 90% oferecido pelo Desenrola tornou muito mais atraente a possibilidade de renegociação.

Enquanto permite ao encalacrado livrar-se de uma dívida estratosférica para o seu padrão de ganho, contudo, o Desenrola não altera o fato de que a renda disponível do brasileiro para consumo, depois de pagar dívidas e comprar itens essenciais, encontra-se nos patamares mais baixos da série histórica apurada pela consultoria Tendências.

Assim, alguém que acabou de renegociar uma dívida outrora impagável volta a acessar linhas de financiamento caras, especialmente em cenário de Selic de dois dígitos, como crédito pessoal e rotativo do cartão de crédito. E tudo isso com alguns poucos cliques no celular. Recursos aos quais só se deve recorrer em caso de emergência extrema se transformam em um complemento de renda de alto custo para as famílias.

Em parte por conta disso, e a despeito do novo Desenrola, o porcentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer voltou a crescer e alcançou 82% em julho de 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Entre os mais pobres, tal drama é ainda mais agudo. A proporção de endividados entre os que recebem até três salários mínimos (R$ 4.863) subiu para 84,9% em julho (ante 84,7% em junho e 81,2% em julho de 2025). Além disso, o porcentual de contas em atraso nesse grupo subiu para 38,5% em julho de 38,3% em junho.

Mesmo com a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o brasileiro vive à beira do abismo. E assim seguirá sendo, enquanto o foco for o sintoma, tratado com o Desenrola, e não a doença, causada por uma combinação de juros persistentemente elevados por um longo tempo e pelos estímulos governamentais ao endividamento. (Opinião/Estadão)

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