Segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026

Líder da bancada evangélica apoiou acordo do INSS com entidade acusada de fraude que recebeu R$ 221 milhões

Uma das principais lideranças da bancada evangélica, o deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM) participou da assinatura de um acordo entre o INSS e a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), uma das entidades investigadas por suposta fraude em descontos de aposentadorias. Desde aquele acordo, a CBPA recebeu R$ 221 milhões repassados pelo INSS, entre março de 2023 e abril de 2025 – mês em que foi deflagrada a Operação Sem Desconto, que apurou irregularidades nessas entidades.

Silas acompanhou o presidente da CBPA, Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, em reuniões com a cúpula do INSS no início de 2021, ainda durante o governo de Jair Bolsonaro. Em maio daquele ano, ele compareceu à cerimônia em que foi assinado, conforme Diário Oficial, um “protocolo de intenções (…) com a finalidade de efetivar descontos nos benefícios previdenciários” de filiados à CBPA, no valor de até 2,5% do benefício.

“O acordo de cooperação técnica com o INSS trará um novo momento para mais de 1 milhão de pescadores e pescadoras artesanais do país”, escreveu Silas, após a cerimônia no INSS ao lado de Lincoln.

O acordo foi efetivado em julho de 2022, e os descontos passaram a ocorrer em março de 2023, já durante o governo Lula. Entre junho e julho daquele ano, a CBPA passou de 35 mil associados com descontos nos seus vencimentos para mais de 220 mil. Com isso, a entidade saltou de cerca de R$ 30 mil para R$ 7,5 milhões recebidos do INSS por mês. No início de 2025, o valor subiu para R$ 9,5 milhões mensais.

Quando a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a investigação, a CBPA contava com 442 mil associados que tinham seus vencimentos descontados pelo INSS e repassados à entidade. A CGU entrevistou uma amostra de 32 associados à CBPA, em 2024, e nenhum deles disse ter autorizado os descontos. Segundo a CGU, a entidade ligada a Silas Câmara não conseguiu esclarecer a situação de nenhum desses associados.

Contratos milionários

O caso entrou na mira da CPI do INSS após um depoimento de Abraão Lincoln, presidente do CBPA, em novembro. Documentos enviados à CPI e levantados pelo GLOBO mostram que, desde o fim de 2023, a CBPA firmou contratos com empresas de familiares de Silas Câmara, para as quais repassou R$ 1,8 milhão.

O primeiro contrato foi com a Network Multimídia, que recebeu R$ 30 mil para divulgar, em agosto de 2023, o “Grito da Pesca”, evento da CBPA que teve o deputado amazonense como uma espécie de “embaixador”.

Em seguida, entre julho de 2024 e março de 2025, a CBPA repassou R$ 1 milhão à Network Filmes, empresa quase homônima à primeira. A Network Filmes tem como sócia Kethlen Brito, cunhada de Heber Câmara, filho do deputado. Heber se apresenta como CEO do “Network Group”. Já a Network Multimídia está em nome de Maria Soraia Costa, sogra de Heber.

No ano passado, a CBPA repassou ainda R$ 30 mil à Rádio Morena FM, que era dirigida por Elienai Câmara, outro filho de Silas.

Houve ainda um contrato entre a CBPA e a Conektah Estratégias Digitais, empresa que figurou na prestação de contas da campanha de Silas Câmara em 2022. A empresa arrecadou R$ 800 mil da CBPA, sob pretexto de “veicular programas radiofônicos” sobre a entidade no Amazonas.

Em ofício enviado à CPI do INSS, a defesa do deputado disse que “não há qualquer base fática ou indício mínimo que permita cogitar” que as empresas foram usadas “para fins irregulares”. A defesa disse ainda que a “relação familiar (…) não implica, por si só, irregularidade”

A CBPA também contratou outra filha de Silas, a advogada Milena Ramos Câmara, para o setor jurídico. Ela já foi coordenadora jurídica da bancada evangélica, que foi presidida por Silas em 2019 e 2023.

Acusado por ex-mulher

Mãe de Milena e Heber, a também deputada federal Antonia Lucia (Republicanos-AC), que se separou de Silas em 2024, acusa o ex-marido de “gastar o dinheiro da farra dos pescadores por meios ilícitos”. Nas redes sociais, Antonia mencionou a atuação de Silas, em 2025, para permitir que entidades como a CBPA sigam intermediando o repasse de seguro-defeso. O benefício é pago pelo INSS nos períodos do ano em que a pesca não é permitida.

Nas redes, o próprio Silas expôs sua articulação com Abraão Lincoln, da CBPA, para modificar uma medida provisória do governo Lula que transferia a responsabilidade do cadastro de seguro-defeso para prefeituras. O Amazonas contava, em 2025, com 83 mil beneficiários do seguro-defeso, boa parte cadastrados pela CBPA e por associações vinculadas a ela.

“Somos contra abrir precedentes que fragilizam a atuação das entidades representativas”, disse Silas na ocasião.

A CPI do INSS virou exemplo de que as grandes lideranças evangélicas, antes aglutinadas com Bolsonaro, hoje já não pensam tão parecido. (Com informações de O Globo)

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