Quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 21 de outubro de 2026
Emojis variados, áudios que se estendem por minutos, mensagens de texto repletas de abreviações e chamadas intermináveis de call centers de empresas. É assim que a tradicional ligação telefônica, que por décadas ocupou lugar central na comunicação, perde cada vez mais espaço para os aplicativos de mensagens.
Levantamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostra que o brasileiro nunca usou tão pouco as redes móveis para chamadas tradicionais.
Em 2026, foram, em média, 19 minutos de ligações mensais por usuário, o menor patamar da série histórica e uma queda de 80% em relação a dez anos atrás.
Essas conversas migraram para aplicativos como WhatsApp, Facebook, Telegram e Signal, que já respondem por 55% do tráfego total de comunicação de voz estimado no país.
Consumo de dados segue caminho inverso
Com as redes sociais e os aplicativos dominando o dia a dia dos usuários, o consumo de dados segue caminho inverso. Na última década, a média mensal saltou 1.285%, passando de 0,47 GB para 6,51 GB por usuário entre 2017 e 2026, volume que corresponde a até dez horas de reprodução de vídeo.
Na tela do smartphone, o botão verde de chamada, herança visual dos antigos telefones fixos, vem se tornando, para muitos consumidores, especialmente os mais jovens, um ilustre desconhecido. A trajetória é semelhante à do SMS, que já deixou de fazer parte da rotina de boa parte dos usuários.
Na lista de mudanças, o WhatsApp ocupa fatia importante do cotidiano digital. A Affinco, empresa de marketing digital, estima em 34 minutos por dia o tempo médio que um usuário passa no aplicativo somente no Brasil.
‘Se eu pudesse, desativaria a função de ligar’
É o caso da estudante Carol Kimus, de 18 anos, que não só prefere mandar mensagens, como também vive arranjando formas de driblar as ligações, sejam elas de telemarketing ou de amigos e familiares.
Natural de Teresópolis, Carol, que vai prestar vestibular para Medicina neste ano, também conta que, como a ligação normalmente é usada para questões mais sérias e importantes, receber uma chamada lhe causa nervosismo e até uma certa apreensão:
“Num telefonema, eu realmente não sei o que esperar da outra pessoa nem o que falar para ela. Eu gosto de me comunicar por mensagem porque, quando eu não sei mais o que falar, posso mandar uma figurinha que vai ilustrar o meu sentimento ou dar fim àquela conversa. Tenho mais recursos para me comunicar.”
O incômodo é tanto que Carol até dispensa a função de chamadas do celular: “Se eu pudesse, desativaria a função de ligar do meu celular. Eu não gosto nem de fazer nem de receber telefonemas. Normalmente, se alguém me liga, espero parar de tocar e envio uma mensagem para a pessoa perguntando se está tudo bem e o motivo da ligação. Sem contar que, às vezes, o telefone toca e eu nem olho, porque já assumo que é telemarketing”.
Chamadas indesejadas contribuem para desuso
Para especialistas, o alto volume de chamadas indesejadas é um dos motivos que vêm distanciando o usuário das ligações de números desconhecidos, hoje associadas a telemarketing e a tentativas de golpe.
Para Ari Lopes, gerente sênior para as Américas e especialista em estratégia de operadoras da Omdia, o uso da voz por meio das ligações ficará cada vez mais restrito a atividades específicas, como suporte ao cliente e ações comerciais de empresas e, em menor volume, ligações para amigos e familiares.
“A queda no uso da voz é uma combinação de fatores. O principal é a mudança de hábitos. Com serviços de mensageria por aplicativos, a população teve acesso a uma maneira fácil e gratuita de fazer chamadas de voz e enviar mensagens. Isso começou com os mais jovens, mas hoje está distribuído em outras faixas etárias”, diz Lopes.
Segundo o especialista, uma estratégia das teles incentivou a migração para aplicativos: “Parte dessa mudança de hábitos foi até facilitada pelas teles, quando incluíram taxa zero no pacote de dados para o WhatsApp. A avalanche de telemarketing e fraudes certamente desestimula o uso de voz”.
Operadores focam em planos pós-pagos e dados
André Gildin, sócio da consultoria RKKG, afirma que a transição já começou há praticamente uma década, influenciada pelo movimento das operadoras, que deixaram de cobrar pelos minutos nos pacotes e passaram a direcionar sua estratégia para planos de conectividade, nos quais a voz é coadjuvante dentro do pacote de internet.
“Planos com voz ilimitada deixaram de ser relevantes e o valor para as empresas migrou para o pós-pago e para a cobrança de dados. O WhatsApp tem cerca de 150 milhões de usuários ativos no Brasil, penetração próxima de 100% entre quem tem internet móvel, e é hoje o principal serviço de voz, videochamada e mensagens do país. A chamada por aplicativos é percebida como gratuita, uma vez que as operadoras têm tratado o WhatsApp como isento.”
Segundo operadoras ouvidas, além do WhatsApp, serviços de ligações das redes sociais e até o FaceTime, no iPhone, costumam juntos oscilar entre 40 e 60 minutos, em média, por mês.