Terça-feira, 31 de março de 2026

Livre-se das moscas brancas

Mosca branca. No mundo corporativo, essa expressão é usada para designar alguém raro, valioso, que pensa diferente e não se encaixa nos modelos existentes. São profissionais que enxergam além do óbvio, que criam soluções inéditas e que desafiam o status quo. Em ambientes de inovação, são indispensáveis: sem moscas brancas, não há transformação, não há ruptura de paradigmas, não há futuro.

Durante mais de 25 anos atuei em cargos de alta gestão, principalmente na indústria. Fui bem remunerado, requisitado, e enfrentei situações complexas que exigiam decisões rápidas e estratégicas. Essa trajetória me deu a convicção de que não basta prosperar; é preciso também gerar impacto positivo na sociedade e no meio ambiente. Em 2015, decidi virar a chave: deixei de ser executivo para me tornar empreendedor. Parecia fácil demais para quem já havia enfrentado tantas batalhas corporativas. Mas o que derrubou meu negócio não foram as dificuldades técnicas ou financeiras, e sim a falta de lealdade, compromisso e honestidade de algumas pessoas. A empresa foi à bancarrota, e eu precisei me redesenhar, ressignificar minha existência e recomeçar.

O nome Renato vem de “renascer”, e nunca fez tanto sentido. Vivi dois anos em uma espécie de exílio, aceitando a proposta de gerir uma obra em Pantano Grande, na Várzea da Capivarita. Era um lugar distante, pobre, mas cheio de vida simples e feliz. Ali cuidei de um empreendimento de energia solar fotovoltaica. Essa experiência me trouxe ensinamentos importantes. Incentivado a acompanhar de perto a regulamentação do setor, descobri um talento que nem imaginava possuir: a capacidade de articular e resolver conflitos regulatórios. Foi ali que nasceram novas asas nesta mosca branca.

E é aqui que preciso destacar algo que me orgulha. Além de contribuir para que o setor conquistasse direitos de acesso à rede, para que a regulamentação fosse cumprida e para que houvesse participação em audiências e reuniões decisivas, também criei e difundi um programa chamado “parceiro gerador”. A ideia era simples e poderosa: permitir que a agricultura familiar tivesse uma renda extra com a construção de pequenas fazendas solares, oferecendo ao produtor rural “doze safras por ano”. O modelo cresceu, mas acabou se voltando mais para investidores, já que os agricultores não dispunham de recursos financeiros, crédito bancário com juros justos ou visão de negócios para se dedicar. Ainda assim, considero essa uma contribuição valiosa, mesmo que pouco reconhecida. Treinei, como empregado da empresa que hoje processo, centenas de pequenas empresas por todo o Rio Grande do Sul – engenheiros, vendedores e proprietários – ajudando a estruturar um mercado nascente.

O título deste artigo vem de um episódio marcante. Entre 2019 e 2022, o mercado de energia solar explodiu. Surgiram centenas de empresas, quase todas voltadas para vendas. Eventos corporativos se multiplicaram, muitos deles transformados em verdadeiros shows, com palestrantes subindo ao palco para vangloriar-se de suas técnicas e sucessos. Alguns se autointitulavam “reis das vendas”, ostentando nas redes sociais e até aparecendo em rede nacional de televisão, enquanto o mercado sofria calotes e distorções. Eu assistia a tudo com a experiência de quem já sabia que aquilo não ia dar certo.

Num desses eventos, um palestrante afirmou com arrogância: “a primeira coisa para ter sucesso em uma empresa de energia solar é livrar-se das moscas brancas”. Aquilo foi um choque, um tapa na cara. Eu sempre fui uma mosca branca. E percebi que essas consultorias que montam máquinas de vendas precisam primeiro eliminar quem não se encaixa no molde. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Vi a empresa onde trabalhava investir valores absurdos em consultorias, contratar pessoas sem experiência, organizar eventos de integração, enquanto lá fora o mercado fervilhava de oportunidades. Sofri um processo cruel de manipulação, postergação e criação de factóides, tudo para me afastar e “livrar-se desta mosca branca que vos escreve”.

Mentiras, falta de compromisso e a tentativa de me segurar para que eu não fosse ao mercado foram imperdoáveis. Isso gerou um processo trabalhista, que até hoje não evoluiu e, mesmo que avance, jamais honrará os compromissos assumidos. Acredito que muitas moscas brancas como eu tenham tido o mesmo destino. Afinal, ser leal é uma das características dessas raridades, e foi justamente essa lealdade que o empregador explorou.

Mas é preciso dizer: as moscas brancas são também as responsáveis pela inovação. São elas que enxergam oportunidades onde ninguém vê, que criam modelos de negócio inéditos, que transformam mercados inteiros. Empresas de inovação não sobrevivem sem moscas brancas. Elas são o motor que impulsiona mudanças, que abre caminhos, que constrói legados. E mesmo que muitas vezes sejam vistas como incômodas, são elas que deixam marcas duradouras.

Finalizo este artigo como um desabafo, mas também como uma afirmação. Muitos podem achar ingenuidade ter me sujeitado a essa situação sem instrumentos jurídicos garantidores, como um contrato de vesting que assegurasse resultados futuros. Talvez seja verdade. Talvez muitas moscas brancas também tenham sido vítimas da boa-fé. Mas a roda gira, e não se vive no passado. A justiça se prende a documentos e passos processuais, e não sei onde isso vai dar. O que sei é que sigo renascendo, como meu nome anuncia, e que mesmo em um mercado que insiste em se livrar das moscas brancas, continuo acreditando que são elas que trazem o verdadeiro valor, a diferença e a possibilidade de construir algo duradouro e transformador.

* Renato Zimmermann – desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (rena.zimm@gmail.com)

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