Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de fevereiro de 2026
Apesar de ter antecipado que em março pretende dar início ao ciclo de redução dos juros, o Banco Central (BC) manteve, na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), o tom severo que deixa explícito que a calibragem e o tempo de duração da queda irão depender do comportamento dos indicadores econômicos. Uma tradução para as explicações do BC é que o calendário eleitoral de 2026 não deve afetar o rumo da política monetária; outra é que os sinais da economia ainda não garantem um afrouxamento significativo da Selic, a taxa básica de juros da economia.
Em um e outro caso, o documento do Copom não deve ter sido do agrado do Palácio do Planalto, que esperava ver sob a gestão de Gabriel Galípolo um BC mais flexível à política econômica de expansão de gastos e incentivo ao crédito adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde o anúncio de que a partir da próxima reunião do Copom a Selic – que este mês completa oito meses em astronômicos 15% ao ano – começará a cair, o mercado esperava também com ansiedade a divulgação dos detalhes da decisão.
Mas, pelo que se viu na ata, os diretores do BC ficaram mais preocupados em garantir a credibilidade técnica das futuras decisões do que indicar graduações, deixando as apostas por conta do mercado. Por diversas vezes o texto destacou que cada julgamento foi feito de forma unânime, como o que reafirmou “a necessidade da manutenção do patamar de juros em níveis restritivos, até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas à meta”.
Na reunião de março é possível que o colegiado esteja completo, com a incorporação dos dois novos diretores a serem indicados pelo governo e sabatinados pelo Congresso. De qualquer forma, a reiterada unanimidade declarada dos atuais sete membros do Copom demonstra a intenção de blindar a política monetária de eventuais interferências políticas.
Ainda que tenha especificado que “a magnitude e a duração do ciclo de distensão monetária serão determinadas ao longo do tempo”, à medida que novas informações, como a evolução do mercado de trabalho, tornarem a análise mais precisa, o fato de o BC ter se referido a um ciclo e não a um corte isolado fez o mercado apostar, de forma quase consensual, em cinco quedas consecutivas ao longo do ano.
Como este jornal destacou diversas vezes, o ciclo poderia ter começado há mais tempo se o governo não tivesse optado por deixar o Banco Central isolado na tarefa de controlar a inflação. O rigor com que o banco tem perseguido a meta de inflação é hoje o ponto de credibilidade que contrasta com a total desconfiança em torno de um governo que dribla o arcabouço fiscal que ele mesmo adotou e que estimula a gastança.
Lula, como é de seu feitio, nunca se responsabilizará pelo nível atual dos juros. E certamente, quando estiver oficialmente em campanha, reivindicará os louros pela queda da Selic e pelo controle da inflação, que se devem, única e exclusivamente, à condução cautelosa da política monetária pelo BC. (Editorial publicado em O Estado de S. Paulo)