Quarta-feira, 01 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 1 de abril de 2026
Preocupado com o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva investe em um pacote de bondades para obter dividendos eleitorais. Lula entrou no que aliados chamam de “modo cobrança” e tem pressionado auxiliares a apresentar resultados rápidos porque, no seu diagnóstico, a comunicação do governo ainda não conseguiu demonstrar o que vem sendo feito.
Se por um lado os indicadores macroeconômicos são favoráveis ao governo, com inflação dentro do intervalo de tolerância da meta, desemprego na mínima histórica e crescimento do PIB, por outro as pesquisas indicam que a economia continua sendo uma das principais preocupações dos brasileiros.
O crescente endividamento das famílias, com a taxa de juros nas alturas, é o que mais causa apreensão no presidente a menos de sete meses das eleições. Na lista das medidas em estudo por Lula estão iniciativas para reduzir a conta de luz e diminuir o custo do rotativo do cartão de crédito.
A equipe econômica também vai regulamentar o uso do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para o crédito consignado privado e avalia outras formas de reduzir os juros para as famílias. Procurado, o Ministério do Trabalho não quis se manifestar sobre isso. Na semana passada, Lula se reuniu com ministros para acertar detalhes de um empréstimo de aproximadamente R$ 7 bilhões às distribuidoras de energia elétrica.
A linha de crédito será criada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para minimizar o aumento das tarifas de energia neste ano de eleições. Na avaliação de Lula, o aumento das tarifas de luz é mais um fator que pode ter impacto negativo nas urnas e há receio de que a guerra no Oriente Médio contribua para a elevação desses preços.
As últimas pesquisas com simulações de segundo turno assustaram o governo ao mostrar um empate técnico entre o presidente e o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL ao Palácio do Planalto e seu principal adversário. A prática de segurar os reajustes de energia elétrica às vésperas das eleições já foi adotada nos governos de Jair Bolsonaro (PL) e Dilma Rousseff (PT). Passadas as disputas, porém, os preços da conta de luz ficaram ainda mais caros. O endividamento das famílias tem causado apreensão. Duas reuniões de emergência foram convocadas por Lula, nos últimos dias, apenas para tratar do tema e vieram à tona ideias para fixar um teto no crédito rotativo do cartão.
“O presidente pediu para estudar (o assunto). Ele disse assim: ‘Olha, como é que pode um juro que é uma Selic por mês em crédito rotativo?’ Isso não tem justificativa. Então, o presidente pediu ao Banco Central e ao Ministério da Fazenda para ver que medidas podem ser tomadas”, admitiu a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.
Joga contra essa proposta, no entanto, o fato de o governo já ter adotado um teto para os juros em 2024 sem que a medida tenha sido eficiente. Questionado a respeito do assunto na quinta-feira, 26, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também foi nessa linha. “Pessoalmente, sempre lembro que estratégias de limitação de preço produzem também limitação de oferta”, destacou.
Pelos dados do BC, o endividamento das famílias em relação à renda anual chegou a 49,69%, abaixo apenas de julho de 2022 – curiosamente o ano em que o então presidente Jair Bolsonaro perdeu a reeleição para o próprio Lula –, quando bateu em 49,8%.
Outro dado que também preocupa é o comprometimento da renda com o pagamento das prestações. O número é recorde para a série do Banco Central e mostra que os brasileiros já gastam quase um terço do salário para pagar juros e serviço das dívidas com o sistema financeiro nacional. Em dezembro do ano passado, esse porcentual atingiu 29,19%.
“A sociedade brasileira está endividada. Então, eu pedi (uma solução) ao meu ministro da Fazenda, porque a gente precisa tentar resolver esse problema da dívida das pessoas”, afirmou Lula ao visitar uma fábrica de automóveis no interior de Goiás.