Quarta-feira, 07 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 6 de janeiro de 2026
Presidente do Instituto SobreMotos, ex-piloto de motovelocidade e instrutor com mais de 25 anos de experiência, Jaime Nazário já treinou mais de 5.000 habilitados das categorias A a D em motos, carros e caminhões — tanto particulares quanto em empresas como Ambev, Stihl e Exército Brasileiro.
A mudança na CNH
O Brasil iniciou 2026 com uma das maiores alterações na formação de condutores das últimas décadas. O Programa CNH do Brasil, em vigor desde 5 de janeiro, trouxe flexibilizações importantes: curso teórico gratuito e digital, redução da carga mínima de aulas práticas para apenas duas horas e possibilidade futura de instrutores autônomos credenciados.
A medida busca ampliar o acesso à habilitação, reduzir custos e promover inclusão social.
Mas os números mostram que o desafio é enorme. Em 2025, o país registrou 453 mil acidentes de trânsito. No Rio Grande do Sul, cidades como Pelotas e Rio Grande figuraram entre as dez com maior número de vítimas fatais, conforme levantamento do Detran-RS. Ao mesmo tempo, os CFCs sofreram mais de 2 mil demissões em todo o país, com impacto direto também no RS, onde unidades fecharam e instrutores foram desligados.
A fala do especialista
Jaime Nazário comenta: “O novo processo para a obtenção da CNH notadamente visa proporcionar um acesso mais simples e barato. A ideia embutida nessa facilitação é promover a inclusão social e maior empregabilidade para os brasileiros de modo geral.
Inegavelmente, tornar o acesso à CNH mais fácil e barato não há como ser considerado negativo. A objeção que frequentemente é posta é se este novo processo não acarretará um aumento na acidentalidade no trânsito, que já é muito alto, devido a uma formação insuficiente dos novos condutores. Ora, é certo que, do jeito que está, nossos índices já são altíssimos! A pergunta que fica é se ainda podem ficar piores.
A realização dos estudos teóricos de forma online segue uma tendência mundial de EAD e, de graça, só pode ser louvável. A obrigatoriedade de duas horas mínimas de aulas práticas em um CFC não tem motivo consistente para ser mantida, mas assim o foi.
Na prática, acredito que muitas pessoas voltarão a aprender a dirigir assim como eu aprendi, e isso não é necessariamente ruim. Em breve, deverá existir um aplicativo para contratação de instrutores autônomos credenciados pelos Detrans.
E quanto à acidentalidade? Bem, tomando os EUA como exemplo, maior liberdade implica maior responsabilidade — e essa deve ser exercida com consciência sobre as consequências que podem advir. Infelizmente, nesse tocante, o nosso CTB (Código de Trânsito Brasileiro) deixa a desejar quando estabelece penas muito brandas, principalmente para os chamados crimes de trânsito”, finaliza Nazário.
A análise de Nazário expõe um ponto central: o Brasil avança na democratização do acesso à CNH, mas permanece atrasado na responsabilização dos condutores. O Código de Trânsito Brasileiro, ao manter penas brandas para crimes viários, fragiliza a eficácia das mudanças e compromete a segurança coletiva.
Os números reforçam a preocupação: 453 mil acidentes em 2025, dezenas de mortes em cidades gaúchas e mais de 2 mil demissões em CFCs. Nazário alerta que inclusão social sem educação viária consistente é um risco.
A nova norma abre portas para milhares de brasileiros, mas só será um verdadeiro avanço se vier acompanhada de campanhas permanentes de conscientização e de um endurecimento das punições para quem coloca vidas em risco. Estas campanhas não precisam vir apenas de órgãos públicos. Iniciativas privadas, como o programa de educação no trânsito do Sincodiv-RS, liderado pelo presidente Jeferson Furstenau, já têm dado exemplo ao promover ações educativas por meio das concessionárias associadas. Isso demonstra que entidades públicas e privadas podem unir forças para conter as mortes e fortalecer a prevenção. (por Gisele Flores)