Quarta-feira, 10 de junho de 2026

“Mais vale o aplauso que o cachê!”

No primeiro dia de aula da especialidade sempre digo aos meus alunos que nós ortopedistas somos, como todos os médicos, artistas.

Nós produzimos arte no corpo humano. Usamos como instrumentos de trabalho: Formão e martelo. Ainda usamos pinças, placas, parafusos, hastes, etc.

Nós fixamos, nós serramos, nós esculpimos ossos.

Nós somos os mecânicos do aparelho locomotor. Nossas cirurgias, nossos atos permitem aos pacientes voltarem a andar, dançar, correr, nadar, escrever, acariciar…

Nosso palco é máquina mais perfeito do universo: o corpo humano. Nossa importância na sociedade sempre foi reconhecida e a nossa profissão, do ponto de vista monetário, sempre foi altamente recompensadora. Hoje não é mais!!

Hoje, no Brasil, com quase 500 faculdades de medicina, formando 50 mil novos médicos por ano, o mercado saturou. Sem depreciar os que trabalham no Uber, vivemos na era da uberização da medicina.

Hoje existe a frustração do médico e da família que investiu tempo e dinheiro a espera de um bom retorno pecuniário. A meta de ganhar dinheiro foi dissolvida.

O sacerdócio foi esquecido e a filosofia do humanismo foi se perdendo no tempo. Os jovens médicos sentem na pele que agradecimentos e palmas não pagam a luz, o aluguel, nem o colégio dos filhos. A medicina se tornou fria, competitiva, capitalista e menos humanista.

Hoje, o que parecia inconcebível no passado é quase rotina: médicos cobrando antes da cirurgia, do tratamento, cobrando “por fora” e ainda sem recibo!

Um velho professor da disciplina de ética médica, cadeira que não existe mais no currículo médico, dizia que o melhor pagamento não é o dinheiro. As vezes a cura pode ser recompensada por um doce, uma maçã ou uma garrafa de vinho.

O sentimento de reconhecimento constrói uma satisfação pessoal tão grande que dinheiro nenhum pode comprar.
As vezes escutar: “Muito obrigada doutor, Deus lhe abençoe!”, Pode ser o melhor pagamento possível.

Ainda, para um grande médico, para um grande artista: “mais vale o aplauso que o cachê!”.

Carlos Roberto Schwartsmann – Médico e Professor universitário

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