Domingo, 01 de fevereiro de 2026

Máquinas agrícolas lideram destinação de emendas parlamentares

A compra de máquinas e equipamentos agrícolas e veículos de tração mecânica e os repasses a instituições de caráter assistencial, cultural e educacional lideram os empenhos para gastos com emendas parlamentares do Orçamento de 2025. Segundo registros do próprio governo federal, o Poder Executivo destinou, por decisão dos deputados e senadores, R$ 1,24 bilhão para instituições privadas de caráter assistencial, cultural e educacional.

Já R$ 1,04 bilhão foram para a compra de máquinas e equipamentos agrícolas e rodoviários. Outros R$ 898,75 milhões foram reservados para a compra de veículos de tração mecânica.

O empenho desses recursos não significa o pagamento efetivo dessas despesas. Uma parcela de R$ 360 milhões foi paga às instituições mencionadas. O pagamento para máquinas e equipamentos agrícolas foi de R$ 38,1 milhões, e para veículos de tração mecânica, de R$ 17 milhões. Esses gastos ajudam a esclarecer as preferências dos deputados e senadores, que privilegiam despesas a curto prazo em detrimento de investimentos de longo prazo.

Tratoraço

A compra de tratores e outros veículos agrícolas está na origem do orçamento secreto, modelo de repasse de recursos por meio de emendas parlamentares sem transparência. Em 2021, o Estadão mostrou que deputados e senadores indicavam recursos para seus redutos, mas o nome do parlamentar era preservado e não aparecia nos registros públicos de execução do Orçamento.

Já a compra prevista no Orçamento de 2025 segue modelo diverso que permite o rastreamento dos recursos, uma vez que o Supremo Tribunal Federal considerou ilegal o modelo secreto criado durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL) na presidência da República.

Especialistas ouvidos em reportagem de O Estado de S. Paulo avaliam que a prevalência de gastos para máquinas agrícolas evidencia uma estratégia que busca apresentar soluções de curto prazo aos municípios. Com isso, investimentos que não oferecem retorno eleitoral imediato acabam ficando em segundo plano.

A reportagem utilizou dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop) para analisar como os recursos das emendas parlamentares foram aplicados no ano passado. Os empenhos descritos pelo governo somam cerca de R$ 7,25 bilhões, abrangendo desde a compra de máquinas agrícolas até a manutenção de bens imóveis e equipamentos energéticos. Desse total, apenas R$ 1,56 bilhão foi efetivamente pago em 2025. O restante ficou reservado para pagamento nos próximos anos.

A maior aplicação de recursos foi por meio de transferência direta aos Estados, ao Distrito Federal e aos municípios. A parte mais significativa dos repasses foi feita por meio de transferências fundo a fundo, modalidade em que o governo transfere o dinheiro de um fundo federal, como o Fundo Nacional de Saúde (FNS), para um fundo estadual ou municipal. Foram R$ 21,97 bilhões enviados aos municípios dessa forma e R$ 3,4 bilhões aos Estados.

As transferências de fundo a fundo são feitas pelo Fundo Nacional de Saúde, pelo Fundo Nacional de Assistência Social, pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador, pelo Fundo Nacional para a Criança e o Adolescente e pelo Fundo Nacional do Idoso. A maioria, no entanto, é pelo FNS. Do total de R$ 26 bilhões de transferências, R$ 25,33 bilhões foram por meio do fundo gerido pelo Ministério da Saúde.

Estratégia eleitoral

Segundo o professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marco Antônio Carvalho Teixeira, as aplicações para máquinas agrícolas, além dos repasses a instituições assistenciais mostram uma estratégia eleitoral, onde soluções de curto prazo são privilegiadas em busca de consolidar um eleitorado para as próximas eleições.

“Você entrega isso direto para o eleitor, para o cliente, para o cidadão, para a organização, chame como quiser. Isso consolida a lealdade eleitoral de quem está recebendo para com quem doa, e isso deixa na posição de quem doa como sendo alguém indispensável de permanecer no sistema político, porque vai ser o parlamentar que vai continuar escoando o recurso que pessoas e organizações querem”, disse.

Na análise de Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, a preferência por soluções rápidas gera a perpetuação de desafios que os municípios enfrentam, cuja superação depende de investimentos a longo prazo.

“É um interesse imediato eleitoral e não de um pensamento mais planejado e mais pautado em critérios técnicos para esse gasto”, afirmou. “Isso afeta a realidade dos municípios no momento em que os municípios, por vezes, têm necessidades muito maiores, que demandam estudos e projetos de planejamento. Atacar esses problemas simplesmente com emendas parlamentares sem critérios técnicos para esse gasto público pode condenar os municípios a perpetuarem esses problemas, essas demandas, essas carências”, completou Consentino.

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