Quinta-feira, 09 de abril de 2026

Menos lucro e mais concentração fundiária

O economista Roberto Rodrigues descreveu, em entrevista recente, o cenário atual do agronegócio como uma “tempestade perfeita”. A metáfora, apesar de assustadora, não parece exagerada. Custos elevados de produção, preços internacionais mais baixos e margens cada vez mais apertadas formam um quadro que desafia até mesmo produtores experientes. A esse ambiente já adverso somam-se riscos geopolíticos e incertezas no comércio global. Nesse contexto, como ele afirma, “só vai ter resultado positivo quem tiver produtividade bem acima da média”.

A frase resume bem o momento do campo brasileiro, mas também revela um problema mais profundo. Se apenas os produtores mais eficientes, capitalizados e tecnologicamente preparados conseguem atravessar períodos de compressão de margens, o resultado provável é um processo acelerado de concentração produtiva e fundiária.

Crises no agronegócio raramente afetam todos de forma igual. Grandes grupos agrícolas costumam ter acesso a crédito mais barato, tecnologia de ponta, gestão profissionalizada e mecanismos de proteção de preços no mercado financeiro. Pequenos e médios produtores, por outro lado, dependem muito mais do crédito bancário tradicional, têm menor capacidade de absorver prejuízos e enfrentam dificuldades para investir em produtividade.

Quando as margens encolhem, essa diferença estrutural se torna decisiva. Muitos produtores menores acabam pressionados por dívidas, dificuldades de caixa ou necessidade de vender ativos para equilibrar as contas. Em muitos casos, a saída é arrendar ou vender a terra, frequentemente para vizinhos maiores ou para grupos empresariais que operam em escala.

O resultado desse movimento é silencioso, mas consistente, com menos produtores controlando áreas cada vez maiores.

Essa tendência não é nova no Brasil, mas períodos de crise costumam acelerar o processo. O próprio argumento da produtividade, correto do ponto de vista econômico, pode acabar reforçando a lógica de escala. Máquinas mais modernas, agricultura de precisão, genética avançada e sistemas sofisticados de gestão exigem investimentos elevados, investimentos que nem todos conseguem fazer.

Assim, a exigência de “produtividade bem acima da média” acaba funcionando, na prática, como um filtro de sobrevivência.

Isso não significa que a busca por eficiência esteja errada. Ao contrário: ela é fundamental para a competitividade do agronegócio brasileiro no mercado global. O problema surge quando ganhos de eficiência se traduzem em exclusão produtiva e concentração excessiva de ativos estratégicos como a terra.

A concentração fundiária não é apenas uma questão econômica; ela também tem implicações sociais, regionais e políticas. Regiões com menos diversidade de produtores tendem a ter menor dinamismo econômico local, menos circulação de renda e maior dependência de grandes cadeias produtivas. Pequenos e médios produtores, quando permanecem no campo, costumam sustentar redes locais de comércio, serviços e emprego.

Além disso, a diversidade de perfis produtivos também contribui para a resiliência do próprio setor agrícola. Sistemas produtivos muito concentrados podem se tornar mais vulneráveis a choques de mercado ou mudanças regulatórias.

Se a “tempestade perfeita” realmente se materializar, como muitos analistas já antecipam, o desafio do País será duplo. De um lado, garantir que o agronegócio continue competitivo, produtivo e integrado ao comércio internacional. De outro, evitar que a crise produza um efeito colateral duradouro: um campo cada vez mais concentrado e menos diverso.

Políticas de crédito mais acessíveis, instrumentos de seguro rural mais amplos e programas de difusão tecnológica voltados a pequenos e médios produtores podem fazer a diferença nesse processo. A modernização do campo deve continuar, mas é preciso garantir que ela não aconteça à custa da exclusão de quem não consegue acompanhar sozinho a corrida por escala e capital.

(Instagram: @edsonbundchen)

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