Segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 18 de janeiro de 2026
Com o corte de tarifas ou a ampliação de cotas de exportação previstos pelo acordo ao longo de 15 anos, o agronegócio será o maior beneficiado no Brasil pelo acordo Mercosul-União Europeia. É o que diz um estudo do Ipea, que apontou carnes e óleos vegetais como o de soja como os mais promissores.
Com o acordo, o agronegócio teria um aumento de exportação de US$ 6,2 bilhões, até 2040. No ano passado, a União Europeia comprou US$ 25 bilhões do campo brasileiro.
“No agronegócio, deve haver um aumento de produção de 2%, o equivalente a cerca de US$ 11 bilhões”, estima Fernando Ribeiro, coordenador de estudos da Diretoria de Comércio Internacional do Ipea, e professor da PUC-Rio, que destaca também o impacto geopolítico da aproximação de duas regiões que formam um mercado de 700 milhões de pessoas em plena guerra comercial entre EUA e China.
Considerando todos os setores da economia envolvidos no acordo, o potencial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é de 0,46%, uma adição de US$ 9,3 bilhões. O Brasil teria o maior ganho relativo no PIB, bem maior que os da UE (0,06%) e dos demais países do Mercosul (0,20%, em média). O acordo trará ainda, segundo o Ipea, alta de 1,19% nos investimentos europeus no país, além de um ganho de 0,41% no salário real.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes Industrializadas (Abiec), o acordo viabilizará a venda de 99 mil toneladas de carne bovina do Mercosul para a Europa por ano, tarifadas inicialmente em 7,5%. O Brasil tem hoje uma cota para cortes nobres, que permite exportar até 10 mil toneladas por ano com uma tarifa de 20% que será zerada pelo acordo.
A Minerva Foods já exporta carne bovina in natura e processada, além de subprodutos, para o mercado europeu a partir de unidades industriais habilitadas nos quatro países do Mercosul, mas, em nota, disse esperar aumento da competitividade de seus produtos com o acordo para alcançar novos mercados no bloco europeu.
Dono da Granja Faria, a maior do país (4,8 bilhões de ovos por ano), Ricardo Faria já habilitou uma unidade de Minas Gerais para exportar ovos para a Europa. A cota prevista pelo acordo é de 3 mil toneladas de ovos processados e mais 3 mil de albumina (proteína da clara).
O empresário, que controla a Global Eggs, holding com unidades na Espanha e nos EUA, habilitou unidades no Uruguai para vender aos europeus no âmbito do acordo. O ovo do Brasil enfrentava barreiras sanitárias na UE desde 2018, mas desde o fim de 2025, unidades têm sido habilitadas individualmente.
“O acordo abre uma possibilidade grande para as exportadoras aumentarem seu portfólio. Nós nos antecipamos para habilitar plantas. Quem for mais rápido, tiver a habilitação na mão, vai surfar mais rápido essa onda”, disse Faria, conhecido como o “rei do ovo”.
Uvas mais competitivas
Ele lembra que o Brasil bateu recorde na exportação de ovos em 2025 (40 mil toneladas, salto de 121% em relação a 2024) com a crise do produto nos EUA. Mas, com o tarifaço de Donald Trump de 50%, as vendas caíram muito.
Agora, a Europa pode ocupar esse espaço, inclusive na venda de produtos de maior valor agregado, como ovos férteis (com embrião). No entanto, Faria considera pequena a cota do acordo, que será dividida entre os outros países do Mercosul: Argentina, Paraguai e Uruguai.
O tarifaço derrubou a venda de uvas da Agrivale para os EUA em 2025. De Petrolina (PE), a maior distribuidora de uva no mercado interno é a terceira exportadora da fruta do país. Produz 25 milhões de quilos por ano, sendo 65% uvas verdes, 20% pretas e 15% vermelhas. Só 25% do total vão para fora. E dessa exportação, um quinto vai para a Europa.
Isso mostra espaço para aumentar a exportação, diz Aníbal Campos, gerente-geral de Comércio Exterior da Agrivale, para quem a UE deve superar mercados considerados estáveis como o Reino Unido. “Com tarifas que variam de 8% a 14% sobre o produto, o retorno do exportador é afetado. Isso fez o mercado europeu se tornar secundário. Mas, com os 50% nos EUA e o acordo com a UE que vai eliminar tarifas sobre a uva em breve, a Europa se torna mais atrativa”.
Ele estima potencial de R$ 33 milhões em aumento de vendas da Agrivale para a Europa e menciona o acesso direto a redes de supermercados europeus como diferencial. O acordo pode tornar a uva brasileira mais competitiva que a do Peru, que já é isenta na UE e é a principal rival na Europa. Com informações do jornal O Globo.