Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 26 de fevereiro de 2026
Uma pergunta ronda há anos a cabeça de Gláucia Fekete: “Se eu tivesse desobedecido a minha mãe e ido para Nova York, o que será que teria acontecido comigo?”. Em 2004, quando a gaúcha tinha 16 anos e dava os primeiros passos para tentar a carreira na moda, ela foi convidada a participar de um concurso de modelos no Equador. A competição oferecia um prêmio de US$ 300 mil e a promessa de contratos internacionais. Ela sairia de lá direto para trabalhar em Nova York.
Mas a mãe dela, Bárbara Fekete, ficou desconfiada. Para convencer Bárbara, o criador do concurso, o francês Jean-Luc Brunel, decidiu fazer ele mesmo uma visita à casa da família no interior do Rio Grande do Sul. Foi assim que Brunel, o agente de modelos que anos depois seria acusado de ser um aliciador de meninas ligado ao criminoso sexual Jeffrey Epstein, passou uma tarde na cidade de Santa Rosa, a cerca de 500 km de Porto Alegre.
Brunel, próximo a Epstein ao menos desde os anos 1980, seria ele mesmo acusado de estuprar e assediar mulheres e preso na França em 2020. Morreu em 2022 na cadeia, sem ter sido julgado. Naquele 2004, o francês conseguiu convencer a família de Gláucia e ela embarcou com a equipe dele para participar do concurso de modelos.
O jornal equatoriano El Universo publicou fotos do evento, afirmou que as aspirantes tinham entre 15 e 19 anos e que o concurso havia coroado como vencedora a brasileira Aline Weber, então com 15 anos e hoje modelo com carreira internacional.
Vetada pela mãe, Gláucia Fekete acabou rejeitando o convite de Brunel para viajar com ele aos EUA. “Aí eu voltei braba com a minha mãe, porque ela não me deixou ir para Nova York.”
A história de Gláucia é parte do novo capítulo de uma investigação sobre os passos de Epstein e de sua rede em território brasileiro e na região. Segundo os documentos do caso, Brunel usava sua agência — primeiro a Karin Models e depois a MC2, que recebeu investimento do bilionário — como forma de atrair garotas em diversos países, inclusive menores de idade, para a rede sexual de Epstein.
A estratégia do francês envolvia a emissão de vistos de trabalho por meio de sua agência de modelos, pagos pelo criminoso, para que meninas e jovens mulheres de outros países pudessem viajar aos EUA.
No ano do primeiro evento no Equador ainda não havia qualquer acusação formal contra Epstein, que começou a ser investigado no ano seguinte, em 2005, e só se declararia culpado em 2008, por solicitação de prostituição envolvendo uma menor de idade. Gláucia Fekete começou a carreira de modelo aos 13 anos, descoberta pelo olheiro Dilson Stein, famoso nacionalmente por ter revelado a modelo Gisele Bündchen.
De acordo com Gláucia, foi Stein quem trouxe a ideia do concurso no Equador à família e a apresentou a Jean-Luc Brunel, que naquele ano do concurso, 2004, não era alvo de investigação policial. A reação inicial de Bárbara, mãe de Gláucia, foi desconfiar do convite para a filha.
“Criei meus filhos com tanto amor e carinho e aí vou largar na mão de quem eu não conheço?”, disse. Parte da resistência também vinha de uma experiência anterior, quando a filha tentou carreira em São Paulo e enfrentou problemas por falta de dinheiro.
“Ela não queria que me envolvesse mais com isso.”
Foi então que Brunel foi levado para conhecer a família.
Gláucia afirma que essas conversas foram feitas em português e que, quando Jean-Luc não entendia, era uma equipe que estava junto de Stein que ajudava na conversa. Para convencer Bárbara, Brunel teria prometido que estava garantido que Gláucia seria a vencedora do prêmio do concurso — US$ 300 mil dólares, segundo notícias publicadas em jornais locais — e que a viagem traria retorno profissional.
Ela lembra que depois do episódio sua mãe a proibiu de seguir carreira como modelo. “Ela quebrou todo o vínculo com essa rede. Me disse para terminar meus estudos e fazer o que eu quisesse depois.”
A ex-modelo, que hoje trabalha com mentoria e estratégia digital, só foi entender no que se envolveu há alguns anos, quando soube quem era Jeffrey Epstein e sua ligação com Brunel por meio de jornalistas do jornal americano Miami Herald, que a procuraram quando investigavam o caso.
Foram as reportagens do jornal Miami Herald em 2019, com depoimentos de vítimas, que contribuíram para reabrir as investigações contra o criminoso sexual, que até então tinha fechado um acordo para encerrar seu caso — preso novamente, Epstein morreria na cadeia no mesmo ano. (Com informações do site BBC Brasil)