Domingo, 31 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 30 de maio de 2026
O filósofo francês Edgar Morin morreu nessa sexta-feira (29), aos 104 anos, em Paris. Morin recebia cuidados paliativos após uma dupla infecção e faria 105 anos no dia 8 de julho. A notícia foi divulgada por um secretário pessoal do pensador, Nelson Vallejo Gomez, em seu perfil no Instagram.
“Ao pôr do sol de uma majestosa tarde de primavera, no Hospital Americano de Paris, nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026, encerrando um fabuloso ciclo existencial que começou em Paris em 8 de julho de 1921, o espírito brilhante do amado sábio da #PoéticaDaCivilidade, meu pai espiritual, querido e admirado Condor, Edgar Morin, tornou-se pura energia”, publicou Gomez. “Agora ele está muito mais intensamente presente em nós. Sempre carregarei seu sorriso em meu coração como um farol de inteligência viva, e o manual da Unesco, que é como um legado.”
Um dos mais destacados intelectuais da esquerda francesa durante o século XX, Morin foi um pensador produtivo mesmo depois de se tornar centenário: aos 102 anos, publicou um romance de inspiração autobiográfica escrito inicialmente em 1946, “L’année a perdu son printemps (“O ano perdeu sua primavera”, em tradução livre).
Autor de mais de 30 livros, o pensador publicou o livro “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro” em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), e veio várias vezes ao Brasil para discutir o ensino.
Morin nasceu como Edgar Nahoum em Paris. Pesquisador emérito do Centre National de la Recherche Scientifique. e formado em Direito, História e Geografia, fez estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. Judeu de origem sefaradita, participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista de seu país na Segunda Guerra Mundial, quando aderiu ao Partido Comunista, em 1941. Foi nessa época que adotou o pseudônimo com que ficou famoso
No fim do conflito, foi para a Alemanha ocupada, como adido ao Estado Maior do Primeiro Exército Francês na Alemanha, em 1945, e, em 1946, como chefe do departamento de propaganda do governo militar francês. Nessa época, escreve seu primeiro livro, L’An zéro de l’Allemagne (“O Ano Zero na Alemanha”), sobre situação do povo alemão no pós-guerra.
A partir de 1949, Morin se afastou do Partido Comunista, que o expulsou definitivamente em 1951, por suas posições contra o ditador russo Joseph Stálin. Em 1955, coordenou um comitê contra a guerra da Argélia e defende particularmente Messali Hadj, pioneiro da luta anticolonial e um dos próceres da independência da Argélia.
Entre a década de 1970 e os primeiros anos do século 20, Morin se aprofundou nos estudos que levaram à publicação que começou em 1977 com o primeiro volume de “O Método” e terminou com o sexto em 2004.
Em paralelo, nesse mesmo período Morin publicou 30 outros livros, entre eles “Terra-pátria”, de 1993, em que ele evoca “a tomada de consciência da comunidade pelo destino terrestre”, e “Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro”, de 2000. O primeiro saber, diz Morin, é o das cegueiras do conhecimento, que são o erro e a ilusão. Deve-se valorizar o primeiro para evitar o segundo.
Os seis outros saberes são a união dos conhecimentos para evitar a sua fragmentação, a condição multidimensional humana, a identidade com a Terra, a urgência de enfrentar as incertezas, a compreensão indispensável na interação entre as pessoas e a ética que deve fazer cada um de nós não querer para os outros o que não quer para si mesmo.
Um dos principais exemplos apontados por Morin do fracasso do modelo do pensamento especializado é, diz ele, a incapacidade da economia de resolver problemas cruciais devido à sua fundamentação excessiva na matemática, com prejuízo na consideração de fatores de outras ciências, principalmente as humanas.
Morin mudou a forma como é visto o conhecimento ao criticar a divisão artificial das ciências em “caixinhas” isoladas, propondo que tudo na vida, na natureza e na sociedade está interligado. Na educação, ele propôs um ensino voltado para a cidadania planetária, a compreensão humana, o preparo para lidar com incertezas e a valorização do afeto e do respeito às diferenças.
Nos últimos anos, seu foco principal com a filosofia da complexidade tem sido alertar a humanidade contra “a ideia louca do homem senhor da natureza, que ia conquistá-la e dominá-la”, como disse ele em uma entrevista à Rádio Televisão Belga em maio de 1992, um mês antes da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92.
Essa ideia louca, afirmou Morin, nos conduziu a uma “nova Idade Média planetária”: “Todos os elementos estão prontos para civilizar o planeta. Mas estamos longe de uma civilização civilizada”.