Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 22 de janeiro de 2026
Em 2024, o Brasil teve 1.461 vítimas de feminicídio (quatro por dia) e outros 3.126 casos de tentativas de feminicídio (nove por dia), segundo os dados dos Estados compilados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Outro crime que afeta eminentemente mulheres, o estupro e o estupro de vulneráveis fizeram 86.638 vítimas em 2024 no país (237 por dia).
Neste ano, de janeiro a outubro, foram 1.184 vítimas de feminicidio (também quatro por dia); 3.022 vítimas de tentativas de feminicídio (dez por dia) e 65.936 vítimas de estupro e de estupro a vulneráveis (217 por dia). O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um dos principais think tank da área de segurança pública do país, tem números um tanto distintos.
Em 2024, com base em dados das secretarias e órgãos estaduais, o fórum computou 1.492 vítimas de feminicídios, 3.870 vítimas de tentativas de feminicidio e 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulneráveis.
Além dos números, o que estarrece mais são os casos. Taynara Souza Santos, 31 anos, morreu após ser atropelada e arrastada por um quilômetro pela marginal Tietê, em São Paulo, pelo ex-companheiro Douglas Alves da Silva. Juliana Soares, de 35 anos, teve o rosto desfigurado por 61 socos desferidos pelo ex-namorado Igor Cabral, ex-jogador basquete.
São assassinatos ou tentativas de assassinatos com tal nível de violência que parece não haver, na língua portuguesa, palavra suficientemente áspera para nomeá-los. Em inglês, com precisão, o termo overkill às vezes é usado nesse contexto.
Crise global
A ONU Mulheres diz que há uma crise global de feminicídio e chama atenção para os perpetradores que vivem sob o mesmo teto ou que são parentes das vítimas. Diz que em 2024, cerca de 50 mil mulheres e meninas em todo o mundo foram assassinadas por seus parceiros ou por outros membros da família (entre eles, pais, mães, tios e irmãos). Esse número significa que no ano passado, em média, 137 mulheres ou meninas foram mortas por dia ao redor do mundo por alguém da sua família.
A ONU Mulheres cita estudo recente que colocou o continente africano como palco, em 2024, dos números mais altos de assassinatos de mulheres por seus parceiros ou familiares (3 vítimas por cada 100 mil habitantes). A média das Américas foi de 1,5 vítima; da Oceania, 1,4. Os números registrados na Ásia e na Europa são menores: 0,7 e 0,5 respectivamente.
No Brasil, segundo os dados do Sinesp, a taxa de vítimas de feminicídio (cometidos por parceiros, familiares ou outros) em 2024 foi de 0,69 por 100 mil habitantes. As piores taxas foram de Mato Grosso (1,23 por cada 100 mil habitantes) e Mato Grosso do Sul (1,21).
Fazer frente a essas mortes é algo que desafia países pobres e ricos e que passa por ações policiais e judiciais urgentes, estruturas de proteção, educação para o futuro e, o mais complexo de tudo, mudança de comportamento dos homens.
Avanços
A promotora de Justiça Fabíola Sucasas, titular na Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Doméstica da Capital, do Ministério Público de São Paulo, vê avanços no Brasil.
“O sistema jurídico tem avançado, o ordenamento jurídico, o entendimento dos juízes, a atuação dos promotores, dos delegados, tudo isso está mudando”, diz a promotora. “O que não tem mudado é o comportamento dos homens. Prevenção [aos crimes contra mulheres] a gente não está conseguindo.”
Com 20 anos de atuação em casos de violência contra a mulher e atuando na unidade do Ministério Público localizada no Fórum Criminal da Barra Funda, na capital paulista, Fabíola Sucasas diz que esse tipo de crime está longe de ser uma realidade restrita a famílias de baixa renda. Ela diz que muitos casos que vê envolvem agressores que não têm antecedente criminal e são homens com trabalho fixo. “Já tivemos delegados, pessoas poderosas, reconhecidas”, afirma a promotora de Justiça.
Desafio
Um ponto-chave e um desafio para as políticas de enfrentamento à violência contra mulher no país e no mundo: quais medidas podem ser capazes de transformar comportamentos de homens para que não agridam ou matem mulheres?
“O que precisa ser mudada é a postura do homem que às vezes agride, mas não na medida do espancamento, esse homem que às vezes faz agressão psicológica, moral, esse homem precisa começar a desconstruir isso, a identificar esses traços, isso é possível de fazer não com um decreto ou com uma lei. É com a indignação. Os outros homens podem nos ajudar nisso”, diz Estela Bezerra, secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, do Ministério das Mulheres. (Com informações do Valor Econômico)