Sábado, 07 de fevereiro de 2026

Mudanças climáticas e seus impactos na saúde e nas relações de trabalho, uma discussão necessária

A crise climática já não é uma previsão distante, mas uma realidade que se impõe diariamente. Estudos da Universidade de Oxford estimam que, até 2050, cerca de 3,8 bilhões de pessoas estarão expostas a temperaturas extremas. No Brasil, país tropical, as ondas de calor vêm se tornando mais frequentes e intensas, afetando diretamente residências e empresas. O aumento da temperatura eleva os custos com energia elétrica, especialmente pelo uso de ar-condicionado, compromete a produtividade de trabalhadores em ambientes externos e altera a dinâmica de setores como agricultura e comércio.

Em escritórios e indústrias, o calor excessivo reduz a eficiência de máquinas e motores, além de gerar riscos à saúde dos funcionários, criando um desafio que vai além da infraestrutura e alcança as relações de trabalho. O conceito de “justiça térmica”, defendido pelo geógrafo Wagner Ribeiro, da USP, surge como resposta a esse cenário. Ele propõe que políticas públicas sejam voltadas para garantir conforto térmico, não apenas por meio de equipamentos caros e energicamente intensivos, mas pela revisão do modelo de urbanização e construção.

Pé-direito mais alto, janelas maiores e circulação cruzada de ar são medidas simples que podem reduzir a dependência de sistemas artificiais de climatização. Essa reorganização das edificações, embora complexa e onerosa, é vista como essencial para que a população consiga enfrentar o futuro marcado por extremos climáticos. Enquanto o Brasil sofre com o calor, países do norte enfrentam o efeito contrário. O enfraquecimento da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), sistema que regula correntes oceânicas, está provocando ondas de frio intenso na Europa e América do Norte. Esse paradoxo climático, com calor extremo em regiões tropicais e frio severo em áreas temperadas, tem a mesma origem: o aquecimento global.

O desequilíbrio das correntes oceânicas e atmosféricas mostra que os impactos não são isolados, mas interconectados, exigindo uma resposta global coordenada. No Brasil, a urgência da adaptação foi tema central do Fórum Nacional de Educação Energética e Mudanças Climáticas, realizado em Porto Alegre em agosto de 2025. O evento, apoiado pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, destacou a importância da educação e conscientização como caminho para um futuro sustentável.

Empresários, cientistas e médicos discutiram soluções que vão desde a transição para energias limpas até os impactos diretos na saúde da população. O climatologista Carlos Nobre, conhecido por seus estudos sobre a Amazônia, reforçou que o excesso de CO₂ intensifica doenças respiratórias e vetoriais. Já o painel coordenado pelo médico Luiz Carlos Bodanese trouxe especialistas como Airton Stein e José Miguel Chatkin, que alertaram para a emergência da saúde climática e os riscos crescentes de doenças pulmonares em ambientes urbanos.

O fórum foi inovador já em sua primeira edição ao incluir o Ministério Público do Trabalho em debates sobre altas temperaturas em ambientes profissionais. Em pavilhões industriais, já foram registradas condições acima do limite suportado pelos trabalhadores, o que levanta preocupações sobre segurança laboral e exige novas regulamentações. A saúde mental também foi abordada, já que o estresse térmico e os desastres climáticos, como enchentes e secas, aumentam os índices de ansiedade e depressão.

A professora Lavínia Schüler Faccioni trouxe ainda a perspectiva genética, destacando pesquisas que revelam a presença de microplásticos no corpo humano, com potenciais efeitos sobre o bem-estar e a reprodução. Essas discussões mostram que o impacto das mudanças climáticas não se restringe ao ambiente físico, mas se estende às relações sociais e econômicas. Empresas precisam repensar seus modelos de operação, adotando soluções sustentáveis como áreas verdes e ventilação natural, capazes de reduzir em até 5ºC a temperatura ambiente.

Residências devem ser adaptadas para garantir conforto térmico sem sobrecarregar a rede elétrica. E governos precisam avançar em políticas públicas que integrem justiça térmica, saúde e trabalho. O futuro, portanto, exige uma transformação profunda. Ondas de calor e frio extremo são sintomas de um planeta em desequilíbrio, e a resposta não pode ser fragmentada. No Brasil, a adaptação das cidades e das empresas será decisiva para proteger vidas e manter a economia funcionando. Nos países do norte, a preparação para o frio intenso será igualmente vital. Em ambos os casos, o desafio é o mesmo: enfrentar os efeitos do aquecimento global com inovação, justiça e solidariedade.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética.
Contato: rena.zimm@gmail.com

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