Segunda-feira, 17 de junho de 2024

Na visão de Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, a taxa básica de juros em um dígito provavelmente não ocorrerá em 2024

Com o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o ano de 2023 começou quente no terreno político, mas terminou com alguns avanços na pauta econômica, como a tramitação da reforma tributária no Congresso e a sanção presidencial, com vetos, do arcabouço fiscal defendido pelo ministro da Fazenda Fernando Haddad.

No entanto, na visão de Arminio Fraga, economista, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio da Gávea Investimentos, as ações não foram suficientes para melhorar a economia nacional. Ele avalia, por exemplo, que o Congresso não tem mostrado compromisso com a responsabilidade fiscal. Como ponto positivo, ele destaca a discussão da reforma tributária, uma pauta que vem sendo debatida há décadas, apesar de o texto ter muitas exceções.

Com esses fatores em mente, Fraga diz que um cenário de Selic (a taxa básica de juros) em um dígito provavelmente não vai se materializar em 2024. Na visão dele, a inflação está baixa do ponto de vista histórico, mas elevada do ponto de vista dos objetivos do Banco Central. Além disso, ele reforça que a Bolsa brasileira, que chega no fim de 2023 em patamares que não eram vistos há dois anos, é uma boa opção para quem tem uma visão de longo prazo investir em ações de qualidade.

1) Como o sr. avalia o primeiro ano do Lula 3?

É importante olhar para o clima geral, pois ele traz um pano de fundo importante. As naturais tensões entre os Poderes vinham em níveis maiores do que o próprio desenho da democracia prevê e, com o 8 de janeiro, a coisa se manteve quente por um tempo. De lá para cá, as coisas se acalmaram. Alguns temas de grande visibilidade internacional evoluíram positivamente, sobretudo aqueles ligados à mudança climática.

Houve a aprovação do arcabouço fiscal, que propõe um ajuste relativamente pequeno nas contas públicas – e que, na prática, tudo indica que não vai ser cumprido. Dentro desse capítulo, vigorou durante este ano a noção de déficit zero, que não vai ocorrer. A leitura de que essa é a solução deixa de lado um fato muito simples: o déficit que se pretende zerar é o primário (que desconsidera o pagamento de juros da dívida pública).

Na medida em que se incorpore a conta de juros, o déficit público vai continuar elevado. Estamos falando de juros reais de 5%, 6% em cima de uma dívida de três quartos do PIB e de um crescimento modesto. Isso significa que a relação dívida-PIB deve seguir crescendo, algo não recomendável.

2) A Selic iniciou uma trajetória de queda, mas o risco fiscal continua no radar e os juros seguem altos nos EUA. O que esperar a partir de janeiro?

Acho que o cenário de Selic em um dígito provavelmente não vai se materializar. Isso não é torcida, é uma leitura realista da situação. Mas alguma queda da Selic no curto prazo parece ser o cenário com o qual o Banco Central (BC) trabalha.

Temos uma inflação baixa do ponto de vista histórico, mas alta do ponto de vista dos objetivos formais do BC. Fora do Brasil, o momento é muito tenso. Qualquer cenário tem de levar em conta os chamados riscos de cauda.

Eu me refiro aos cenários mais extremos: guerras, pandemia e mudança climática e os desentendimentos entre Estados Unidos e China.

3) A Bolsa brasileira atualmente é atrativa para o investidor?

Vale a pena para quem tem uma visão de longo prazo investir em ações de qualidade. O Brasil tem excelentes gestores nessa área. É preciso entender também que o mercado não anda em linha reta, ele vai oscilando. Nesse sentido, eu volto ao meu primeiro ponto.

Tem que ter uma estratégia, um horizonte de tempo mais longo e diversificação. É uma boa receita para as pessoas terem um pouco de paz de espírito. Elas vão se sentir melhor assim do que tentando dar grandes tacadas.

4) No início do ano, o investidor estrangeiro fugia da bolsa por hesitação com o governo Lula. A fuga de capital externo ainda não cessou. Por que o gringo continua cético com o Brasil?

O estrangeiro está, provavelmente, querendo diminuir risco em geral. A Bolsa americana passou por um período de boom extraordinário. A partir da grande crise de 2008, subiu quase em linha reta e depois deu uma chacoalhada. Os juros dos Estados Unidos aumentaram muito e isso nos impacta também.

Se as coisas começarem a piorar lá fora, isso pode se inverter. Porém, eu me preocupo mais com o fato de não termos uma estratégia de desenvolvimento arrumada.

5) Qual será o maior desafio para o investidor em 2024?

Sinceramente, é apenas mais um ano no Brasil, com os desafios de sempre. É escolher bem os investimentos, entender que em um dia chove e no outro faz sol. Portanto, uma boa disciplina de investimento tem que levar isso em conta.

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