Quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 14 de janeiro de 2026
A língua de um povo é um dos pontos mais vivos de sua identidade. Ela se transforma, continuamente, junto com seus falantes e a forma como vivem, contando a história e a cultura desse povo como ninguém. O mesmo acontece com as expressões que usamos: elas não são formadas por coincidências e apontam para nossa memória coletiva e para quem somos.
A história do Brasil pode ser aprendida pelos livros, mas também pela fala. Separei alguns exemplos que mostram como certos aspectos da nossa história moldaram a fala cotidiana — mesmo quando a razão por trás delas já se perdeu no tempo.
Aqui vão:
De meia-tigela
“Meia-tigela” é uma expressão pejorativa usada para desqualificar alguém considerado medíocre ou de pouca competência. A origem remonta à época da monarquia portuguesa, quando os funcionários da realeza recebiam sua comida de acordo com a importância atribuída ao seu cargo. Havia até livro oficial que determinava as quantidades, chamado “Livro da Cozinha del Rei”. Quanto maior o status de sua posição, mais alimentos recebiam. Sendo assim, cargos de alta hierarquia recebiam uma tigela cheia de comida, enquanto as funções de hierarquia mais baixas recebiam a tal da meia tigela.
Vá tomar banho
Reza a lenda que os povos indígenas, fartos de receber ordens de homens malcheirosos – membros da corte portuguesa, que passavam dias com a mesma roupa e sem qualquer higiene – mandavam que fossem tomar banho. A frase servia tanto para aliviar o incômodo com o odor quanto por um motivo mais simbólico: para muitos povos originários, o banho também era um ritual de purificação. E, ao que tudo indica, eles achavam que isso fazia bastante falta aos recém-chegados.
Fazer uma vaquinha
Essa vai para os vascaínos! A expressão nasceu entre torcedores que se reuniam e juntavam seu dinheiro para aumentar o “bicho” dos jogadores, com o intuito de estimular os atletas. As premiações eram baseadas no jogo do bicho (nome dado à premiação, herdado do jogo do bicho), sendo 25 o prêmio mais alto, só concedido em grandes vitórias. O desejado número 25 no jogo do bicho era a vaca, de onde restou a famosa expressão “fazer uma vaquinha”.
Acabar em pizza
Comprovando o impacto do futebol na cultura brasileira, agora é a vez do Palmeiras deixar seu legado.
Na década de 1960, durante uma grave crise no clube, seus dirigentes passaram mais de 14 horas encerrados em uma reunião para tentar resolver a situação. Os ânimos se acaloraram, gritos foram ouvidos, e por pouco não chegaram às vias de fato. Na sequência, como se nada tivesse se passado, se retiraram para uma pizzaria no Brás e, depois de 18 pizzas (dizem as salivantes línguas), selaram a paz.
“Crise do Palmeiras termina em pizza”, noticia a Gazeta Esportiva, e a expressão se perpetuaria nas conversas políticas das próximas décadas.
Tem caroço nesse angu
Expressão usada para sugerir que há algo de cabuloso ou nebuloso em alguma situação. Ela remonta à vergonhosa época da escravidão no Brasil e reflete um pouco das duras condições vividas pelos escravizados. Conhecer sua origem é um exercício de memória histórica e nos ajuda a refletir sobre seu uso.
Em Minas Gerais, pessoas escravizadas eram alimentadas basicamente com angu, um mingau feito de fubá e água. As mulheres que o preparavam, em um gesto de cuidado, escondiam pedaços de carne e torresmo da mesa dos senhores e colocavam na refeição.
Quando se deparavam com um pedaço desse “extra”, o código que usavam para falar do assunto era “caroço” — “tem caroço nesse angu” —, evitando assim que o feitor percebesse do que se tratava.
No fim das contas, a gente fala muito mais do que imagina. Cada expressão carrega uma história escondida, um contexto esquecido, uma memória disfarçada de hábito. E talvez por isso a língua seja tão fascinante: porque, talvez sem perceber, seguimos contando nossa própria história todos os dias.