Quarta-feira, 09 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 8 de setembro de 2026
As pesquisas divulgadas na segunda-feira trouxeram uma novidade importante: Augusto Cury (Avante) chegou a dois dígitos antes mesmo da campanha engrenar de vez no rádio e na televisão. O BTG/Nexus, com entrevistas entre sexta e domingo, o colocou em 11%, e a Atlas/Bloomberg em 7,8%, contra 3% em julho. Em ambos, ele ocupa o terceiro lugar, isolado.
O crescimento foi impulsionado por uma campanha muito eficiente nas redes sociais. A ida de Cury ao debate da Band e à sabatina do Jornal Nacional gerou conteúdo que circulou amplamente nas plataformas, com uso intenso de influenciadores profissionais.
O resultado valida uma tese que vinha sendo discutida ao longo do ano: a polarização desta eleição é mais tênue do que a de 2022. O eleitorado está mais aberto a alternativas, tanto ao governo quanto ao principal nome da oposição. A BTG/Nexus mostra que 25% dos eleitores preferem um candidato de terceira via. Cury foi o primeiro a ocupar esse espaço de forma mais visível e contundente.
Ainda assim, é cedo para apostar em uma virada. A candidatura dispõe de poucos recursos no horário eleitoral: apenas 35 segundos por bloco, contra mais de cinco minutos de Lula e mais de quatro de Flávio. Após uma semana atraindo atenção quase sem resistência nas redes, Cury passará agora por um mês de campanha exposto a críticas e ataques dos adversários. Sua capacidade de lidar com isso ainda é uma incógnita.
As pesquisas desta semana ajudarão a entender o tamanho real desse primeiro salto. Ao crescer, Cury retira oxigênio dos outros candidatos de oposição, que reagirão. Renan Santos (Missão), que não tem horário eleitoral e apostava nas redes como principal canal de crescimento, viu esse território ser tomado por um concorrente com mais capacidade de atração digital. Romeu Zema (Novo), sem tempo de televisão nem militância organizada na internet, corre o risco de ficar ainda mais apagado. Ronaldo Caiado (PSD), que tinha no horário eleitoral o argumento para tentar chegar a 10%, agora enfrenta uma disputa por atenção que, há uma semana, não existia. A televisão se tornou um recurso ainda mais importante para Caiado, mas a sua eficácia ficou mais questionável.
Paradoxalmente, porém, a entrada de Cury como mais uma alternativa à polarização pode ajudar Flávio a se sustentar na segunda posição. Enquanto o voto alternativo continuar fragmentado entre dois ou três nomes, será difícil que algum deles chegue ao patamar necessário para propor ao eleitor bolsonarista que migre de candidato.
Para que isso mude, o que se teria que observar nas próximas semanas é uma continuidade do crescimento de Cury — chegando a algo próximo de 15%, em média, em meados de setembro —, acompanhada de uma queda de Flávio para a faixa de 25%. Nesse cenário, o argumento do voto útil contra Lula começaria a favorecer o candidato do Avante. Para ganhar tração, esse argumento precisaria também ser respaldado pelas simulações de segundo turno: Cury vencendo Lula com mais folga do que Flávio.
Esse caminho existe, mas ainda depende dos próximos eventos. De todo modo, a chegada de Cury prova que a eleição está em aberto: o favoritismo de Lula nesta eleição é bastante tênue, e Flávio não pode pensar que tem vaga garantida no segundo turno. (Por Silvio Cascione, portal Estadão).