Segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 2 de fevereiro de 2026
Um dos pontos sobre os quais o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli pediu que o diretor de Fiscalização do Banco Central (BC), Ailton de Aquino, fosse questionado foi a data em que a autoridade monetária identificou os primeiros indícios de que as carteiras de crédito consignado do Banco Master, vendidas ao Banco Regional de Brasília (BRB) por R$ 12,2 bilhões, seriam falsas.
Toffoli registrou em anotações para seu gabinete a justificativa: “Essa é a pergunta mais importante do processo. Sem data, não existe ‘tempestividade’. Com data, surgem imediatamente as omissões”. No Direito, tempestividade refere-se à prática de atos dentro do prazo previsto em lei, o que lhes confere validade e admissibilidade.
Em outro questionamento, o ministro queria que Aquino fosse confrontado sobre uma suposta demora do Banco Central em detectar as fraudes do Master. Ele também registrou o motivo da pergunta: “Cria uma contradição lógica incontornável: ou o conceito de tempestividade é esvaziado, ou a fiscalização falhou por anos”.
Mais adiante, Toffoli orientou uma pergunta sobre indícios de fraude nas carteiras de crédito consignado do Master detectados em fevereiro de 2025 pelo BC. O ministro cita uma nota da autoridade monetária à imprensa na qual o órgão havia afirmado que, na ocasião, não realizou novos exames nessas carteiras. Em seu comentário, Toffoli registrou: “Aqui aparece a omissão consciente documentada: o BC detecta indícios graves e, ainda assim, interrompe a fiscalização”.
No Banco Central, houve desconforto com o teor da lista de perguntas. Técnicos da autarquia avaliaram, sob condição de anonimato, que o conteúdo dos questionamentos parecia seguir uma linha semelhante aos argumentos da defesa do banqueiro.
Em seu depoimento, questionado pela delegada se o BC teria agido com a “celeridade necessária” entre a identificação das irregularidades e a liquidação do banco, Vorcaro respondeu: “Não acredito que agiu. Acredito que a ação do Banco Central ao final, no dia 17 ( de novembro de 2025), prejudicou não só a mim, mas principalmente o mercado financeiro, o sistema financeiro”, afirmou o banqueiro.
Vorcaro recebeu em novembro de 2024, um ano antes de ser liquidado, ainda na gestão de Roberto Campos Neto, um ultimato do BC para melhorar a saúde financeira e a governança do banco. A liquidação só ocorreria na gestão atual, de Gabriel Galípolo.
No depoimento na audiência que ocorreu no Supremo no ano passado, o banqueiro disse ainda que “forças internas do Banco Central e do mercado” queriam que “acontecesse o que aconteceu”, em referência à liquidação de sua instituição.
Como mostrou o Estadão à época, o interrogatório do diretor Ailton de Aquino teve momentos de desentendimento entre a delegada Janaína Palazzo e o juiz auxiliar Carlos Vieira Von Adamek, que representava o ministro Toffoli na audiência, sobre a condução do processo.
Inicialmente, Janaína queria realizar a acareação, pois essa era a determinação oficial de Toffoli. Apesar de a assessoria do STF ter informado que o ministro havia mudado de ideia, permitindo os depoimentos e deixando a decisão sobre a acareação a cargo da delegada, não houve despacho formal nesse sentido. Por isso, Janaína quis seguir o que valia do ponto de vista oficial.
Adamek, então, ligou para Dias Toffoli, e o ministro determinou, por telefone, que os depoimentos fossem tomados antes pelas autoridades.
Depois, Adamek entregou a Janaína uma lista de perguntas que deveriam ser feitas pela delegada, o que elevou o tom do desentendimento entre ambos. Ela afirmou que caberia à PF conduzir o interrogatório, e não ao STF. Adamek ligou novamente para Toffoli, que teria ordenado que as perguntas fossem feitas como se fossem dele próprio.
Ao final, foram feitas a Aquino duas perguntas enviadas pelo gabinete de Toffoli. A primeira indagava quais medidas futuras ainda seriam tomadas pelo BC em relação ao Banco Master após a liquidação.
O advogado do Banco Central que acompanhava Aquino pediu a palavra: “Desculpe, excelência. A pergunta parece um tanto quanto vaga e um tanto quanto especulativa. O colega inquirente fala sobre fatos”. O advogado pediu que a delegada esclarecesse exatamente o que queria saber sobre a fiscalização do BC. Janaína passou o papel onde estava anotada a pergunta para o juiz Adamek, que estava sentado ao lado e, até então, não aparecia no vídeo da gravação.
Adamek releu a pergunta e disse que o questionamento não era genérico. O advogado retrucou e insistiu que a pergunta era especulativa e que a resposta dependeria de decisões futuras da governança do Banco Central. (Com informações de O Estado de S. Paulo)