Segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 1 de fevereiro de 2026
As notas de corte do Sisu 2026, principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil, alcançaram níveis mais altos dos últimos três anos em cursos de alta concorrência, como medicina, engenharias, direito e tecnologia da informação.
Os dados têm como base as listas finais divulgadas com o resultado individual dos estudantes. Em medicina na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), um dos cursos mais tradicionais do País, a nota mínima em ampla concorrência subiu 10,07 pontos em relação ao Sisu 2025. Em direito na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o aumento foi de 10,02 pontos.
Especialistas apontam como principal causa do aumento a mudança no regulamento do sistema de seleção federal, que passou a permitir o uso da melhor nota entre as três últimas edições do Enem, de 2023, 2024 e 2025.
Com isso, cresceu o número de candidatos disputando vagas com pontuações elevadas, o que pressionou as linhas de corte, sobretudo nos cursos com demanda mais concentrada.
Para o orientador do curso pré-vestibular Oficina do Estudante, Alfredo Terra Neto, a dinâmica do Sisu passou a se assemelhar à de um leilão. “Com mais notas altas disponíveis, as pontuações foram inflacionadas”, afirma. Segundo ele, em alguns institutos federais, cursos fora do topo tradicional tiveram aumentos ainda maiores, como administração, engenharia elétrica e logística, com altas superiores a 38, 46 e até 54 pontos.
A mudança no Sisu 2026 já havia sido recebida com preocupação por parte dos vestibulandos, que temeram aumento da concorrência e a participação de estudantes já matriculados em universidades tentando trocar de curso. A avaliação da redação, considerada mais rigorosa neste ano por parte dos candidatos e dos professores, seria um dos fatores para a disputa mais acirrada.
O presidente do Inep, órgão responsável pelo Enem, Manuel Palacios afirmou que não há risco de prejuízo aos participantes. Segundo ele, como a matriz de correção e o gênero textual não sofreram alterações, os resultados são comparáveis entre si e seguros para uso no processo seletivo.
No Bernoulli Educação, a alteração também gerou preocupação entre concluintes do 3º ano do ensino médio, que se veem em desvantagem frente a candidatos com mais de uma nota válida. O diretor executivo das unidades escolares, Marcos Ragazzi, afirma que a expansão do Sisu e a dinâmica de realocação ao longo da semana de inscrições também contribuíram para a elevação das notas.
Além da mudança no regulamento, outros fatores influenciaram o resultado. O professor e consultor de currículo nacional do ensino médio da Escola Eleva, Rafael Cruz, afirma que o desempenho dos estudantes em matemática foi ligeiramente superior ao do ano passado, o que puxou as médias finais. Ele também cita alterações nos critérios de bonificação adotados por algumas universidades.
Decisões locais ajudaram a explicar altas específicas. Na UFU (Universidade Federal de Uberlândia), onde medicina e engenharia aeronáutica figuram entre as maiores notas do País, o avanço está ligado à alteração dos pesos das provas do Enem no cálculo da nota final, com maior valorização da redação e de ciências da natureza.
Para quem está na lista de espera, a expectativa é de acomodação. O diretor pedagógico do ensino médio da Rede Alfa CEM Bilíngue, Rafael Galvão, diz acreditar que parte da elevação é artificial e deve recuar nas chamadas subsequentes. “É improvável que estudantes já matriculados abandonem o curso para tentar uma troca”, afirma. (Com informações da Folha de S.Paulo)