Segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Novo remédio contra Alzheimer desacelera a doença, mas não é cura; veja o que a ciência já sabe

O novo medicamento Leqembi, aprovado pela Anvisa para o tratamento da doença de Alzheimer em estágio inicial, atua diretamente para desacelerar o avanço dos sintomas. Para três especialistas da área de farmacologia e neurologia, a chegada do fármaco representa um marco histórico na abordagem terapêutica do Alzheimer, porque, ao contrário dos medicamentos disponíveis até então, ele não se limita a aliviar sintomas, mas atua sobre o mecanismo que leva à progressão da doença.

Ao mesmo tempo, os especialistas alertam que o tratamento tem custo elevado e só pode ser usado por pacientes que atendam a critérios específicos, como confirmação da presença de placas beta‑amiloide e acompanhamento médico contínuo.

Na prática, ele age contra a substância pegajosa que se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer, chamada beta-amiloide. O acúmulo dessas placas é uma das características definidoras da doença. Os anticorpos antiamiloide têm como objetivo reduzir a carga de amiloide no cérebro, impedindo a formação das placas associadas ao Alzheimer.

O tratamento é seguro?

A eficácia do medicamento foi demonstrada em um estudo publicado em 2022 na New England Journal of Medicine, uma das revistas científicas mais importantes do mundo. O ensaio clínico de grande escala envolveu 1.795 voluntários com Alzheimer em estágio inicial. As infusões do medicamento foram administradas a cada duas semanas.

Após 18 meses de acompanhamento, os pacientes que receberam o medicamento apresentaram redução do declínio cognitivo e funcional, indicando uma progressão mais lenta da doença.

“Nós já temos fármacos dessa classe antiamiloide aprovados. Pelo menos um deles está liberado em cerca de 43 países. Agora, com a liberação do Leqembi no Brasil, a expectativa é que esses medicamentos sejam adotados na maioria dos países que têm infraestrutura para esse tipo de tratamento”, explica o pesquisador Eduardo Zimmer, do Hospital Moinhos de Vento apoiado pelo Instituto Serrapilheira e IDOR Ciência Pioneira

O estudo incluiu apenas pessoas entre 50 e 90 anos com Alzheimer precoce, o que engloba indivíduos com comprometimento cognitivo leve ou demência leve causada pela doença. Para participar, era necessário ter pontuação entre 0,5 e 6 na escala Clinical Dementia Rating – Sum of Boxes (CDR-SB), que caracteriza os estágios iniciais.

“Do ponto de vista do paciente, se eu tivesse comprometimento cognitivo leve e um exame positivo para amiloide, eu tomaria o medicamento. Mesmo com potenciais efeitos adversos, eu tomaria, porque é muito provável que a doença progrida para fases mais graves. Ter a opção de remover as placas e desacelerar esse processo faz diferença”, diz o especialista.

Apesar disso, o tratamento não é indicado para todos os pacientes em estágio inicial. Ele é indicado para pacientes com comprometimento cognitivo leve que tenham confirmação da presença de placas beta-amiloide no cérebro, seja por exame de imagem, ou por análise do líquor (exame neurológico). Além disso, esses indivíduos precisam passar por testagem genética.

Quais são os efeitos colaterais? E os custos?

O uso do leqembi está associado a uma classe específica de efeitos adversos conhecida como ARIA (anormalidades relacionadas à imagem do amiloide). Os efeitos colaterais mais comuns são edemas e hemorragias.

De acordo com o estudo, o medicamento causou reações relacionadas à infusão em 26,4% dos participantes e alterações em exames de imagem associadas ao amiloide, com edema ou pequenos sangramentos, em 12,6% dos casos. A maioria das reações ocorreu na primeira dose.

Outros efeitos adversos que afetaram mais de 5% dos pacientes incluíram: dor de cabeça (11,1%); quedas (10,4%); tontura (5,5%); siderose superficial do sistema nervoso central (5,6%).

Segundo o neurologista Helder Picarelli do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), o custo do tratamento é elevado. “Nos Estados Unidos, estima-se um valor entre 25 mil e 30 mil dólares por ano por paciente. Além disso, é necessário investimento em diagnóstico e em profissionais especializados, já que o medicamento exige infusão a cada duas semanas e monitoramento por causa dos efeitos colaterais”.

“Estamos apenas no começo do desenvolvimento dessa estratégia. Por isso, ainda é preciso colocar tudo na balança, selecionar muito bem os pacientes e avaliar se vale a pena”, completa Helder.

O que o novo medicamento significa para o dia a dia dos pacientes

Os estudos clínicos apontam benefícios em pacientes com demência leve. De acordo com Picarelli, os testes utilizaram escalas padronizadas que avaliam memória, orientação, julgamento, resolução de problemas e atividades do dia a dia. “Essas escalas mostraram benefício. Teoricamente, a qualidade de vida tende a melhorar”.

Ele ressalta que a percepção mais relevante vem de quem convive com o paciente. “Os familiares e cuidadores são os melhores para perceber se houve ou não piora. Como essas escalas avaliam atividades cotidianas, é provável que esse benefício seja real. Ainda assim, a seleção dos pacientes é fundamental. Normalmente, aqueles com bom estado geral. Pacientes com múltiplas comorbidades têm maior risco”, diz Picarelli.

O debate sobre a doença e seus tratamentos pode transformar a vida de inúmeros pacientes. Isso porque, nos últimos anos, poucas opções terapêuticas realmente novas surgiram com potencial de interferir no desenvolvimento e na progressão da doença de Alzheimer.

 

 

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