Domingo, 05 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 4 de abril de 2026
A quinta edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que meninas sofrem mais do que os meninos durante a adolescência. O levantamento com estudantes de 13 a 17 anos revela que o dobro delas sente maior tristeza “na maioria das vezes” ou “sempre”, tem mais vontade de se machucar e acha que a vida não vale se vivida. Além disso, há três vezes mais alunas cuja autoavaliação em saúde mental foi negativa do que entre os alunos.
“É notável que foram as meninas a se sentirem mais tristes, mais preocupadas, mais irritadas, nervosas ou mal-humoradas, que mais se machucaram intencionalmente, que mais perceberam que ninguém se preocupava com elas e que mais sentiram que a vida não valia a pena ser vivida. Apenas quanto ao número de amigos é que as meninas ficaram em posição superior aos meninos, quando eles relataram mais frequentemente que elas não terem amigos próximos”, diz o relatório da Pense.
Um dos pontos que ajudam a explicar por que as meninas aparecem com indicadores mais graves de sofrimento está fora da escola, e começa dentro de casa. Para a psicóloga e professora da Unesp Claudia Prioste, há um ambiente de vulnerabilidade que antecede a vida escolar. Ela aponta que o aumento da violência doméstica e a fragilização das redes de apoio atingem diretamente as adolescentes.
— O lar, que deveria ser um espaço de proteção, muitas vezes é o lugar mais perigoso para essas meninas. Muitas crescem expostas ao sofrimento das mães e assumem responsabilidades precoces, o que contribui para quadros de estresse contínuo. Isso gera um transtorno que não exatamente uma depressão isolada, mas um fenômeno mais amplo de estresse pós-traumático. A sobrecarga emocional, somada à falta de suporte efetivo, ajuda a entender por que sentimentos como tristeza persistente, abandono e desesperança aparecem com tanta força nos dados do IBGE — ilustra a especialista.
As jovens também são as principais vítimas de bullying nas escolas. Segundo o levantamento, um quarto (27,2%) dos alunos do país relata que, nos 30 dias antes da pesquisa, pelo menos duas vezes algum “colega da escola o esculachou, zoou, mangou, intimidou ou caçoou” tanto que “ficou magoado, incomodado, aborrecido, ofendido ou humilhado”. Entre as meninas, esse índice sobe para 30,1%, contra 24,3% dos meninos. Por outro lado, 13,7% declaram ter praticado bullying contra seus colegas — sendo 16,5% entre os meninos e 10,9% das meninas.
As redes sociais funcionam como um amplificador dessa pressão, especialmente entre as meninas. Segundo a psicóloga Anna Lucia Spear King, jovens com baixa autoestima tendem a buscar validação nesses ambientes.
— Eles colocam a própria felicidade na mão do outro. No caso das meninas, a cobrança estética é ainda mais intensa. O padrão exigido para a mulher é muito mais rigoroso. Muitas não postam uma foto sem filtro, e quando postam, são duramente criticadas — afirma.
Esse ambiente de comparação e julgamento constante pode agravar quadros de ansiedade, depressão e insatisfação corporal. Para Tatiana Serra, as redes antecipam processos e aumentam a pressão sobre adolescentes.
Ao mesmo tempo, a socialização de meninos segue caminhos distintos, o que também impacta os resultados. Enquanto elas são ensinadas a internalizar o sofrimento, eles são estimulados a expressar força e agressividade.
— Os meninos são socializados para serem fortes, valentões, e muitas vezes aprendem que a violência traz benefícios sociais. Esse modelo ajuda a entender por que eles aparecem mais como autores de bullying, enquanto as meninas concentram os indicadores de sofrimento emocional. Esse modelo ajuda a entender por que eles aparecem mais como autores de bullying, enquanto as meninas concentram os indicadores de sofrimento emocional — diz Prioste.
Para as especialistas, fortalecer vínculos dentro da escola é essencial para identificar precocemente o sofrimento. Segundo elas, a relação entre professor e aluno está fragilizada, mas ainda é a principal via de acesso.
— Quando há confiança, o aluno fala. Muitas vezes começa a chorar ao ser ouvido — diz Prioste.
Para ela, ampliar a presença de psicólogos e criar canais seguros de escuta pode ser decisivo. Já no campo individual, Tatiana Serra defende que o enfrentamento do trauma passa, antes de tudo, pela escuta. Segundo ela, rodas de conversa, grupos de apoio e educação emocional são caminhos fundamentais para reduzir o sofrimento.
Os dados mostram que há duas vezes mais meninas nessa faixa etária se dizendo tristes do que meninos. Quatro (41%) entre dez delas relatam esse sentimento. Entre os meninos, esse patamar cai para 16% — o que significa três em cada 20 estudantes.
— Essa diferença é muito grande. Mais do que o dobro. No total, 28,9% dos alunos de 13 a 17 anos disseram se sentir tristes. Na escola pública, é 29,2%. Na privada, 27,2%. Ou seja, as questões socioeconômicas influenciam menos do que as questões de gênero, que precisam ser estudadas e analisadas para a saúde dessas meninas — afirmou Marco Andreazzi, gerente de Pesquisas Especiais do IBGE. Com informações do portal O Globo.