Sexta-feira, 17 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 17 de abril de 2026
Dados do IBGE mostram que a produção agropecuária cresceu 11,7% em 2025, muito acima do restante da economia. No mesmo período, o PIB nacional avançou apenas 2,3%, a indústria cresceu 1,4% e o setor de serviços, 1,8%. Sem a força do campo o crescimento do Brasil teria sido mais modesto, em torno de 1,5%.
No mercado externo, o protagonismo do agronegócio também foi evidente. As exportações do setor bateram novo recorde, atingindo 169 bilhões de dólares, metade de tudo o que o país vendeu ao exterior. Soja, milho, açúcar, algodão, suco de laranja e carnes continuaram puxando essa engrenagem que sustenta a balança comercial, reiterando o papel do agronegócio como o setor mais dinâmico da economia brasileira.
Os números impressionam. Além de abastecer o mercado interno e sustentar empregos para cerca de 29 milhões de trabalhadores, o agronegócio brasileiro exerce papel relevante na segurança alimentar global, contribuindo para alimentar cerca de 10% da população mundial.
Ainda assim, por trás dessa vitrine de recordes, existe uma realidade bem menos confortável para quem está no campo. Safras históricas têm convivido com um endividamento crescente e queda na rentabilidade, impulsionados pelo alto custo de produção e pela queda nos preços das commodities. A dívida do setor agropecuário já supera 1,2 trilhão de reais.
Segundo dados do Banco Central, no crédito rural a inadimplência atingiu o maior nível da série histórica, aumentando os pedidos de recuperação judicial, sinal claro de que muitos produtores enfrentam dificuldades para manter a atividade. O programa Desenrola Rural, voltado à renegociação de dívidas, já movimentou cerca de 12 bilhões de reais, com forte adesão de pequenos produtores.
Diante desse quadro, surge a questão: como um setor que tanto contribui para o crescimento do PIB pode estar tão endividado? A resposta está no próprio conceito de PIB, que mede o valor total da produção, mas não o lucro dos produtores. Quando há supersafra, cresce a oferta de produtos no mercado.
Com mais mercadoria disponível, os preços caem. E foi exatamente isso que aconteceu com a soja. Em 2022 a saca chegou a valer 200 reais. Hoje gira em torno de 110 reais, o menor preço dos últimos 14 anos. Paralelamente, os custos de produção aumentaram, com uma forte elevação dos preços de fertilizantes, combustíveis, defensivos agrícolas e juros, comprimindo ainda mais as margens de lucro. O produtor está vendendo mais, mas ganhando menos.
O cenário internacional também preocupa. Os conflitos geopolíticos, especialmente no Oriente Médio, tendem a pressionar ainda mais os custos logísticos, o preço dos insumos e a instabilidade nos mercados.
Ainda assim, o setor demonstra elevada resiliência. O produtor segue trabalhando, mesmo com margens apertadas ou resultados negativos, assumindo riscos, gerando empregos, exportando e garantindo a entrada de dólares fundamentais para o equilíbrio das contas nacionais.
Mesmo quando o campo vive dificuldades, o país se beneficia com o que ele entrega. Quando a safra vai bem, todos ganham. Sem safra, todos perdem, estendendo-se os impactos negativos a toda a sociedade.
*Eduardo Allgayer Osorio
Engenheiro Agrônomo. Professor Titular da UFPEL. Aposentado