Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 18 de fevereiro de 2026
A inteligência artificial avança em ritmo exponencial. Ela calcula, prevê, automatiza, classifica e decide com uma eficiência que nenhum ser humano consegue igualar. E exatamente por isso podemos nos indagar: “se as máquinas fazem cada vez mais, o que sobra para nós?” Esse tipo de preocupação tem assombrado muitas pessoas, levando em conta que novidades, especialmente as disruptivas, costumam desestabilizar o “status quo” e justamente por isso devem ser bem compreendidas.
Poucos podem afirmar com segurança sobre o verdadeiro alcance da IA. Como alguém que acompanha com atenção o assunto, meu palpite vai em linha com as conclusões do recente estudo realizado pela consultoria McKinsey: sobra tudo aquilo que nunca foi técnico, mas sempre foi humano. Empatia. julgamento, sensibilidade, comunicação. liderança, coragem moral, senso de oportunidade, percepção, enfim, o que se relaciona com o campo das emoções humanas.
Nesse sentido, os estudos da McKinsey são claros ao mostrar que, à medida que tarefas rotineiras e analíticas são automatizadas, cresce o valor das competências sociais e emocionais. Isso não é retórica motivacional. É estratégia competitiva.
Curiosamente, tive a oportunidade de estudar esse movimento ainda no início da minha trajetória acadêmica, quando de minha dissertação de Mestrado, há quase 20 anos. Naquela ocasião, analisei justamente a ascensão das competências sociais no contexto organizacional. À época, era uma intuição fundamentada. Hoje, é uma evidência empírica: quanto mais algoritmos entram nas empresas, mais as pessoas precisam saber lidar com pessoas.
O setor bancário, onde atuei por muitos anos, foi e está sendo também um dos mais impactados pelas novas tecnologias. Existem sistemas sofisticados, dados em tempo real, modelos preditivos, porém cada vez mais aumenta a demanda por líderes capazes de escutar suas equipes, de lidar com conflitos ou de tomar decisões que considerem o impacto humano. Organizações tecnicamente avançadas, mas que dependerão cada vez mais da maturidade emocional de suas equipes.
É aqui que entra o que chamo de “a arte combinatória das competências”. Não basta somar tecnologia com gestão. É preciso integrar competências técnicas, negociais e sociais. Em outras palavras: integrar inteligência artificial com inteligência emocional. Caso contrário, cria-se um paradoxo perigoso, com empresas cada vez mais eficientes e, ao mesmo tempo, cada vez mais desumanas.
A McKinsey projeta que, até 2030, a maioria das funções será redesenhada pela automação. Mas há algo que não será automatizado: a responsabilidade ética.
Um algoritmo pode sugerir quem demitir. Mas quem assina a decisão é um ser humano. Um sistema pode prever o comportamento do cliente. Mas quem responde por ele é um líder.
O centro da liderança, portanto, deixa de ser o controle e passa a ser o julgamento. E julgamento exige repertório humano: sensibilidade social, pensamento crítico e coragem para discordar da máquina quando necessário.
Outro equívoco comum é imaginar que a inovação nasce da tecnologia. Ela não nasce. Ela emerge das pessoas. E pessoas só inovam quando se sentem seguras para errar, propor e divergir. Segurança psicológica não é um software. É uma construção social feita por líderes.
A inteligência artificial vai transformar profundamente o trabalho. Mas ela não vai resolver a crise de sentido que muitas organizações vivem. Não vai ensinar líderes a inspirar, a incluir, a dialogar. Não vai formar caráter.
Por isso, acredito que o futuro do trabalho não será vencido pelos mais tecnológicos, mas pelos mais humanos. As empresas precisam compreender rapidamente sob quais base ocorre a nova competição. Não se trata de escolher entre inteligência artificial e emoções humanas, mas combiná-las de forma que ambas expressem seu melhor potencial. Nessa perspectiva, é possível dizer que a tecnologia muda o jogo e as competências emocionais decidem quem ganha.