Sexta-feira, 31 de julho de 2026

O balneário de luxo na Ucrânia em que turistas em praias lotadas convivem com o perigo constante de bombas e mísseis

Eu não ia ao mar há vários anos. Por isso, quando tive três dias de folga, decidi viajar para Odessa, um dos balneários mais populares da Ucrânia.

Queria desligar um pouco, mudar de ares. E consegui: nem os bombardeios constantes nem a enorme quantidade de pessoas ao meu redor impediram isso.

O que me surpreendeu foram os preços e a atitude dos turistas diante da ameaça constante de estar em uma região próxima da guerra com a Rússia.

A estrada que liga Kiev, capital da Ucrânia, a Odessa está agora em ótimas condições: a rodovia foi recuperada e o asfalto está em bom estado em quase todo o trajeto.

Em compensação, a gasolina está caríssima. Mesmo com um consumo moderado, a viagem de ida e volta a partir de Kiev custou cerca de US$ 130 (aproximadamente R$ 722).

Odessa também está muito, muito cara. Em três dias, duas pessoas gastam ali cerca de US$ 1.000 (em torno de R$ 5.552), sem grandes luxos, mantendo um padrão de gastos de classe média.

A comida merece um capítulo à parte porque não apenas está cara —a conta média de um jantar simples para duas pessoas gira em torno de US$ 50 (R$ 278)— como também os restaurantes vivem lotados, o que torna necessário fazer reservas com vários dias de antecedência.

Mas o que mais impressiona é o contraste dos dois lados que convivem juntos na cidade. De um, estão o luxo, os preços e as atividades de lazer típicas de um reduto de férias no verão. Do outro, as constantes e imprevisíveis ameaças à vida de bombas, mísseis e minas.

Somente no domingo, 19 de julho, um ataque russo com mísseis nas proximidades do porto de Odessa, o maior da Ucrânia, matou dez pessoas. Na segunda-feira, 20 de julho, outro bombardeio na cidade deixou três mortos. No dia seguinte, o centro histórico foi atingido.

Os bombardeios aqui são mais frequentes do que em Kiev: as sirenes tocam de 4 a 6 vezes por dia, inclusive durante a noite. A cidade sofreu danos graves, principalmente na região próxima ao porto.

Todos os dias, pessoas morrem em ataques da Rússia. E, ainda assim, as praias ficam lotadas.

Os canais de televisão locais informam tudo em tempo real: “Um míssil está seguindo em direção à praia de Ibiza”, uma das mais populares de Odessa.

Quem está na praia ao lado reage com indiferença. É possível ouvir comentários como: “Ah, tudo bem, está indo para Ibiza, não para cá”, embora as duas praias estejam separadas por, no máximo, quatro quilômetros.

Existem abrigos nas praias, mas é preciso caminhar cerca de dez minutos para chegar até eles. Por isso, a maioria das pessoas simplesmente permanece parada, observando os mísseis cruzarem o céu.

Durante um dos bombardeios mais intensos, corremos para procurar abrigo. Acabamos em um bar próximo, sob um teto de palha. Que esconderijo: uma proteção puramente psicológica feita de folhas de palmeira.

A importância de Odessa
O que acontece em Odessa em meio à invasão russa da Ucrânia não é um caso isolado, sobretudo quando se observam as ambições do presidente russo, Vladimir Putin.

Isso porque Odessa tem grande valor simbólico: ocupa um lugar importante na história e na cultura da Rússia.

Localizada na costa noroeste do mar Negro, a cidade, com mais de 1 milhão de habitantes, é um centro cultural multiétnico e um importante polo turístico e de transportes.

Às vezes, é chamada de “a pérola do mar Negro”, talvez por sua arquitetura histórica, de estilo mais mediterrâneo do que russo, com forte influência francesa e italiana.

Especialistas dizem que Odessa é muito diferente de Kiev e de outras cidades ucranianas. De fato, a cidade ainda preserva fortes raízes russas. Isso se deve, em parte, a dois acontecimentos de grande importância histórica ocorridos ali.

O primeiro foi em 1905, quando um levante de trabalhadores em Odessa, apoiado pela tripulação do encouraçado russo Potemkin, terminou em um massacre provocado pela repressão das forças czaristas. Estima-se que 1.000 pessoas tenham morrido.

Esse levante foi um dos vários episódios que culminaram na Revolução Russa de 1917 e ficou eternizado no filme “O Encouraçado Potemkin”, de 1925, dirigido pelo cineasta soviético Sergei Eisenstein.

Outro episódio marcante ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, tropas romenas e alemãs atacaram a cidade. A defesa de Odessa durou 73 dias, e resultou na morte de 40 mil a 60 mil soviéticos.

Posteriormente, Odessa recebeu da União Soviética o título de cidade “heroica”. Com informações da BBC News.

 

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