Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 26 de fevereiro de 2026
Ontem, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei nº 278/2026, conhecido como ReData, que cria um regime especial de tributação para serviços de datacenter. A proposta suspende tributos federais sobre equipamentos e insumos usados na construção e expansão dessas estruturas, exigindo também o uso de energia renovável. O texto agora segue para o Senado, e sua aprovação marca um passo importante na tentativa de posicionar o Brasil como protagonista na economia digital. Mas, por trás da euforia, há dilemas que precisam ser enfrentados.
Datacenters são o coração da internet. São naves industriais repletas de servidores que armazenam, processam e distribuem informações. Tudo o que circula nas redes sociais, nos bancos, nos sistemas de governo e nas plataformas de streaming passa por eles. Para funcionar, dependem de energia elétrica em larga escala, de sistemas de resfriamento — muitos deles à base de água — e de cabos de fibra óptica que conectam o mundo em tempo real.
No Brasil, já representam 1,7% do consumo nacional de energia, com projeções de chegar a 3,6% até 2029. Em alguns casos, um único datacenter pode consumir milhões de litros de água por dia para manter seus equipamentos em temperatura adequada, o que gera preocupação em regiões de escassez hídrica.
O avanço desses empreendimentos traz impactos ambientais e sociais. O consumo crescente de energia pressiona a matriz elétrica e pode encarecer tarifas. O uso intensivo de água, embora pequeno em termos percentuais, é significativo em áreas vulneráveis. Além disso, há impactos urbanos: grandes empreendimentos exigem terrenos extensos, infraestrutura robusta e podem gerar desigualdades regionais.
Não se trata apenas de tecnologia, mas de interesses econômicos profundos. Grandes empresas de tecnologia veem nos datacenters a base para expandir serviços de inteligência artificial, nuvem e streaming. Governos enxergam oportunidades de arrecadação e competitividade. O ReData é exemplo disso: um incentivo fiscal que busca equilibrar atração de capital com regulação.
A soberania digital é outro ponto central. Quem controla os datacenters controla o fluxo de informações. O Brasil, ao aprovar o ReData, busca atrair investimentos e reduzir a dependência de estruturas estrangeiras. Isso fortalece a capacidade nacional de proteger dados estratégicos e de se posicionar como polo regional de tecnologia. A exigência de energia renovável no projeto é um aceno à sustentabilidade, mas ainda insuficiente diante da escala do desafio.
No cenário internacional, os Estados Unidos vivem uma situação crítica. As big techs já consomem cerca de 40 gigawatts de energia em seus datacenters, o suficiente para abastecer dezenas de milhões de residências. O governo americano convocou empresas como Microsoft e Meta para discutir o impacto desse consumo nos preços da eletricidade e na estabilidade da rede.
O alerta é claro: sem coordenação, a expansão pode comprometer a infraestrutura energética nacional. É um recado que ecoa no Brasil, onde a matriz energética é relativamente limpa, mas não infinita. E nesse contexto, o Rio Grande do Sul emerge como protagonista. Em Porto Alegre, a empresa Tecto Data Centers anunciou investimento de R$ 200 milhões para a construção de um novo centro de dados no bairro Sarandi, com potência de 20 MW e conexão ao cabo submarino Malbec, que liga o Brasil à Argentina.
Já em Eldorado do Sul, está em andamento a construção da Scala AI City, um polo de datacenters voltado para inteligência artificial, com investimento inicial de R$ 3 bilhões e geração de mais de 3 mil empregos. Esses projetos não apenas reforçam a infraestrutura digital do estado, mas também o conectam diretamente às rotas globais de dados. A proximidade com o Atlântico e a ligação com cabos submarinos internacionais tornam o Rio Grande do Sul um ponto estratégico para o fluxo de informações entre América do Sul, América do Norte e Europa.
Essa posição é estratégica porque os cabos submarinos são as verdadeiras “autoestradas” da informação global. Sem eles, não há como garantir velocidade e confiabilidade na transmissão de dados entre continentes. Ao se consolidar como ponto de chegada e distribuição desses cabos, o Rio Grande do Sul não apenas hospeda datacenters, mas se transforma em um hub de dados capaz de interligar o Brasil às principais rotas digitais do planeta. Isso fortalece a soberania digital brasileira e cria condições para que o país se torne referência em infraestrutura tecnológica sustentável.
Os datacenters estão se espalhando pelo mundo porque dados são o novo petróleo. A explosão da inteligência artificial, da internet das coisas e da digitalização de serviços exige capacidade de processamento cada vez maior. Países competem para sediar datacenters, oferecendo incentivos fiscais e infraestrutura. O Brasil, com matriz energética renovável e posição geográfica estratégica, tem potencial para se tornar protagonista. Mas precisa garantir que esse protagonismo não seja apenas econômico, e sim também social e ambiental.
Os datacenters são indispensáveis para a economia digital, mas não podem ser vistos apenas como motores de crescimento. São também consumidores vorazes de energia e água, com impactos ambientais e sociais relevantes. A aprovação do ReData é um passo importante, mas precisa ser acompanhada de políticas de eficiência, transparência e soberania de dados. O desafio é equilibrar inovação e sustentabilidade, garantindo que o coração digital do país bata em sintonia com os interesses da sociedade.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Contato: rena.zimm@gmail.com