Quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O buraco da camada de Ozônio: A lição que o mundo precisa reaprender

A camada de ozônio é uma das estruturas mais preciosas da atmosfera terrestre. Invisível aos olhos, mas essencial para a vida, ela funciona como um escudo que absorve grande parte da radiação ultravioleta emitida pelo Sol. Sem essa proteção, os riscos para a saúde humana seriam devastadores: aumento de casos de câncer de pele, catarata, mutações genéticas e desequilíbrios ecológicos que afetariam desde os oceanos até a agricultura.

É difícil imaginar a vida na Terra sem essa barreira natural, e justamente por isso o choque foi tão grande quando, em 1985, cientistas anunciaram a descoberta de um buraco na camada de ozônio sobre a Antártida, resultado direto das atividades humanas.

A origem do problema estava nos clorofluorcarbonetos, os famosos CFCs, presentes em aerossóis, sistemas de refrigeração e ar-condicionado. Essas moléculas, ao atingirem a estratosfera, destruíam o ozônio, abrindo uma ferida atmosférica que crescia ano após ano. A ciência, com a tecnologia disponível na época, foi capaz de identificar a anomalia e alertar o mundo. E o mundo, surpreendentemente, respondeu.

Em 1987, foi firmado o Protocolo de Montreal, um tratado internacional que determinou a eliminação gradual dos CFCs e de outros gases nocivos. Foi um exemplo raro de cooperação global em que países ricos e pobres se uniram em torno de um objetivo comum: salvar a camada de ozônio.

O Brasil teve papel importante nesse processo. Além de adotar legislações que restringiram o uso de substâncias destruidoras do ozônio, o país participou de programas de substituição tecnológica e de monitoramento atmosférico. A indústria nacional foi obrigada a se adaptar, trocando gases nocivos por alternativas menos prejudiciais. Essa transição não foi simples, mas mostrou que, quando há vontade política e apoio internacional, é possível alinhar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.

Hoje, graças a essas medidas, o buraco da camada de ozônio está em recuperação e os cientistas estimam que, até meados do século XXI, ele poderá estar praticamente fechado. Esse episódio é uma prova de que a ciência, quando aliada à tecnologia e à cooperação internacional, pode reverter danos ambientais. Mas também é um lembrete de que nem todos os problemas têm solução tão clara. Diferente do ozônio, que protege contra os raios ultravioleta, os gases de efeito estufa atuam de outra forma.

O dióxido de carbono, o metano, o óxido nitroso e os hidrofluorcarbonetos não destroem a camada de ozônio, mas retêm o calor na atmosfera, impedindo que a radiação infravermelha escape para o espaço. O resultado é o aquecimento global. O CO₂ é o mais importante por seu volume, mas os outros gases, molécula por molécula, são ainda mais potentes. E ao contrário do buraco de ozônio, cujos efeitos já estão sendo revertidos, o aquecimento global traz consequências irreversíveis: o derretimento das geleiras, a elevação do nível dos oceanos e o aumento das temperaturas médias são processos mais difíceis de serem desfeitos.

Aqui está a grande diferença entre os dois casos. No buraco da camada de ozônio, havia uma causa clara, um culpado identificado e uma solução tecnológica viável. No aquecimento global, as causas são múltiplas, os interesses econômicos são profundos e a solução exige uma transformação radical da matriz energética mundial. Encontrar consenso entre as nações é cada vez mais difícil.

Países dependentes de combustíveis fósseis resistem a mudanças que afetem suas indústrias, enquanto campanhas de desinformação financiadas por setores interessados espalham dúvidas sobre a gravidade da crise climática. Além disso, a desigualdade global pesa: nações em desenvolvimento exigem justiça climática, lembrando que os países ricos foram os maiores emissores históricos.

O buraco da camada de ozônio é um exemplo luminoso de como a humanidade pode se unir para enfrentar uma ameaça existencial. Mas o aquecimento global exige ainda mais coragem, pois mexe com estruturas econômicas e políticas profundas. A lição que precisamos reaprender é clara: quando ciência e sociedade caminham juntas, é possível reverter mecanismos de degradação do planeta. O desafio é transformar essa consciência em ação coletiva, antes que o relógio climático nos cobre um preço impossível de pagar.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

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