Sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O efeito Mounjaro na economia: quando a saciedade vira variável macro

Para quem ainda não conhece, Mounjaro é um medicamento (tirzepatida) que ficou famoso por reduzir apetite e mudar a relação das pessoas com a comida. As redes sociais transformaram isso em meme, mas o que está por trás do humor é um fato duro: quando a saciedade muda, o consumo muda junto. Se ontem alguém comia um xis inteiro sozinho, amanhã pode parar em poucas mordidas e dar por encerrada a refeição. Parece detalhe de comportamento, mas é uma mudança de padrão. E padrão, quando muda em escala, vira economia.

A gente costuma tratar alimentação como um assunto íntimo, quase doméstico. Só que comida é um motor econômico. Ela sustenta cadeias inteiras: agricultura, indústria, logística, restaurantes, eventos, turismo, trabalho informal, delivery, bares, feiras, mercados, rodízios. E mais: ela é parte da experiência. Quem viaja quer provar o croissant em Paris, a pizza na Itália, e aqui no Rio Grande do Sul, o churrasco. Agora imagine um mundo em que uma fatia relevante da população segue comendo porções menores por longos períodos. Não é “o fim da comida”. É a troca do modelo: menos volume, mais seletividade, mais frequência de pequenas escolhas e menos “explosões” de consumo.

O ponto central desta coluna é simples e incômodo: o Mounjaro está reprogramando a demanda. Não só por reduzir o tamanho do prato, mas por mexer em rotinas. Quem belisca come diferente. Quem come diferente compra diferente. E quem compra diferente muda a receita de quem vende. O mercado sempre se reorganiza, mas ele não faz isso sem deixar gente para trás.

Quem entendeu isso cedo foi a Nestlé. Em outubro de 2023, a empresa já dizia publicamente que estava trabalhando em “produtos companheiros” para usuários de medicamentos como Wegovy e afins, justamente porque “quando se come menos, as necessidades mudam” e o prato precisa ter mais densidade nutricional. Três anos atrás, ela estava sinalizando ao mercado que a mudança não era uma onda passageira, era uma curva.

Depois, em 2024, o movimento virou produto com nome, prateleira e estratégia, com uma linha pensada para porções menores e foco em proteína e fibra. Isso importa porque empresa gigante não redesenha portfólio por meme. Ela redesenha por tendência.

E a tendência não para na comida. Ela encosta na bebida, no lazer e na socialização. Nesta semana, a Heineken anunciou corte de até 6.000 empregos, algo perto de 7% do quadro global, e reduziu sua projeção de crescimento de lucro para 2026, citando demanda mais fraca e necessidade de operar mais enxuta.

Dá para discutir mil causas ao mesmo tempo, renda, preço, saúde, novas rotinas. Mas a provocação que fica é: quando parte do mundo passa a sentir menos apetite e muda a relação com excessos, o consumo de “calorias líquidas” também entra na conversa. O efeito do Mounjaro não é só no prato, é no comportamento de recompensa.

Aqui entra a previsão que eu considero mais importante: vai haver uma “desindustrialização do exagero” e uma “economia da porção inteligente”. Quem vive de volume vai sentir primeiro. Rodízios, combos gigantes, “pague um leve dois”, o modelo de comer como entretenimento. Não significa que vai acabar, significa que vai virar nicho, e nicho não sustenta o mesmo número de casas abertas, o mesmo número de funcionários, a mesma lógica de margem. Ao mesmo tempo, vão crescer os negócios que entenderem rápido como vender melhor com menos volume: porção menor com mais qualidade, cardápio com densidade nutricional, experiência mais curta e mais frequente, e produtos feitos para quem está saciado antes do esperado.

Em Porto Alegre, isso tem cara e endereço. É o xis, a pizza, o churrasco, o bar que vive de movimento e o restaurante que vive de rodízio. Se o cliente “fecha a conta” com menos comida, o empresário tem duas escolhas. Ou insiste no modelo antigo e vê o caixa emagrecer sem piedade, ou adapta produto, preço e experiência para um consumidor que não vai voltar a comer como antes só porque você quer.

Daqui a cinco anos, a gente vai olhar para trás e perceber que o Mounjaro não foi apenas um fenômeno de saúde. Foi uma mudança silenciosa na engrenagem do consumo. E, como toda mudança silenciosa, ela não derruba o mundo de um dia para o outro. Ela só obriga o mundo a se reorganizar.

* Tamara Rosenblum, pesquisadora na área de finanças e aposentadoria

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