Sexta-feira, 02 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 1 de janeiro de 2026
Declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, associando o uso do paracetamol ao autismo voltaram a provocar reações críticas da comunidade científica internacional. A afirmação, feita sem apresentar evidências, contraria o consenso médico e reacende o debate sobre os riscos da desinformação em saúde quando ela parte de lideranças políticas. Especialistas reiteram que não há comprovação científica que relacione o medicamento — amplamente utilizado como analgésico e antitérmico — ao transtorno do espectro autista.
As falas ocorrem em meio a um período de forte instabilidade no sistema sanitário norte-americano. Ao longo de 2025, decisões do governo Trump afetaram diretamente órgãos técnicos, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Divergências sobre políticas de vacinação levaram à saída de diretores e especialistas, enquanto novos integrantes com histórico de posições críticas às vacinas passaram a ocupar espaços estratégicos na estrutura de saúde pública dos EUA.
Esse cenário institucional conturbado se soma a uma crise sanitária concreta. Os Estados Unidos enfrentam o maior número de casos de sarampo das últimas três décadas, resultado atribuído, em parte, à queda nas taxas de vacinação infantil. Pesquisas recentes indicam que um número crescente de pais tem adiado ou deixado de aplicar vacinas em seus filhos, ampliando o risco de reintrodução de doenças já controladas.
A influência internacional dos Estados Unidos faz com que decisões internas tenham repercussões globais. O enfraquecimento de agências como o CDC e o afastamento de instâncias multilaterais impactam programas de saúde, financiamento de pesquisas e estratégias de combate a doenças em diferentes regiões do mundo.
Diante desse contexto, especialistas avaliam que o Brasil pode ganhar maior protagonismo no debate sanitário internacional. Apesar de desafios estruturais e limitações orçamentárias, o país dispõe de um sistema público de saúde abrangente, experiência consolidada em campanhas de vacinação e instituições reconhecidas, como a Fiocruz e universidades públicas com produção científica relevante.
Para pesquisadores da área, a crise provocada por discursos políticos sem base científica — como a associação do paracetamol ao autismo — evidencia a importância de políticas públicas fundamentadas em evidências. Nesse cenário, países com tradição em saúde coletiva e produção científica, como o Brasil, podem ocupar um espaço estratégico na defesa da ciência, da vacinação e da cooperação internacional em saúde.