Quinta-feira, 08 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 7 de janeiro de 2026
No dia 6 de janeiro de 2026, a Petrobras anunciou que houve vazamentos de petróleo durante os testes de perfuração na região do Foz do Amazonas. O episódio, ainda em fase de investigação, reacende um debate que parecia ter sido enterrado sob toneladas de discursos na COP30: afinal, estamos realmente comprometidos com a transição energética ou seguimos presos ao vício do petróleo?
A resposta, infelizmente, parece clara — e decepcionante. Enquanto o Brasil enfrenta o dilema de explorar uma área ambientalmente sensível, a vizinha Guiana celebra recordes de produção após descobertas bilionárias de reservas offshore. O país, que até poucos anos atrás tinha uma economia modesta baseada em agricultura e mineração, hoje projeta crescimento de mais de 25% do PIB anual impulsionado pelo petróleo.
Já a Venezuela, após a intervenção militar dos Estados Unidos, vê sua produção aumentar novamente, com campos antes abandonados sendo reativados e exportações retomadas. O mapa geopolítico da energia na América do Sul está sendo redesenhado, mas não em direção ao futuro sustentável que se esperava.
A transição energética, conceito que deveria guiar nossas escolhas, é o processo de substituir gradualmente os combustíveis fósseis por fontes renováveis — solar, eólica, hidrogênio verde, biomassa. Trata-se de uma evolução natural da humanidade, comparável à passagem da lenha para o carvão e depois para o petróleo.
Mas, diferentemente das transições anteriores, esta exige não apenas inovação tecnológica, mas também coragem política e mudanças estruturais na economia global. E é justamente aí que encontramos as maiores barreiras: o petróleo ainda representa cerca de 30% da matriz energética mundial e movimenta trilhões de dólares por ano. Governos e empresas hesitam em abrir mão de uma fonte de riqueza tão imediata.
O IPCC já deixou claro: os gases de efeito estufa, em especial o dióxido de carbono proveniente da queima de combustíveis fósseis, são os principais responsáveis pelo aquecimento global. Em 2025, as emissões globais ultrapassaram 37 bilhões de toneladas de CO₂. A COP30, realizada em Belém, deveria ter sido um marco histórico, mas terminou com promessas vagas e sem metas mais ambiciosas. O resultado é que seguimos caminhando pelo pior caminho, insistindo em explorar novas fronteiras petrolíferas enquanto o planeta clama por redução drástica das emissões. Só não enxerga quem é cego.
Do ponto de vista econômico, há uma lógica cruel: o petróleo financia infraestrutura, gera empregos e garante divisas. Países como a Guiana e a Venezuela veem nele a chance de sair da pobreza ou recuperar relevância internacional. O Brasil, pressionado por interesses internos e externos, também titubeia. Mas essa lógica é míope. O custo das mudanças climáticas já é estimado em trilhões de dólares: secas prolongadas, enchentes devastadoras, perda de produtividade agrícola e crises migratórias. O dinheiro que o petróleo gera hoje pode não compensar o desastre que ele alimenta amanhã.
É verdade que eliminar os combustíveis fósseis ainda está mais no discurso do que na prática. Contudo, há ações em curso que merecem destaque. A União Europeia avança com o plano “Fit for 55”, que prevê reduzir em 55% as emissões até 2030. A China lidera a produção de energia solar e já responde por mais de 40% da capacidade instalada mundial. O Brasil, apesar das contradições, tem ampliado investimentos em eólica offshore e biomassa. O hidrogênio verde começa a ganhar espaço em projetos-piloto na Alemanha, Japão e Chile. São sinais de que a transição energética não é apenas utopia, mas um processo real — ainda que lento e insuficiente diante da urgência climática.
Defender a transição energética é defender a sobrevivência da humanidade. Estamos atrasados, hesitamos em ser mais ambiciosos, e cada novo vazamento, cada nova perfuração, cada nova intervenção militar que reativa poços de petróleo nos lembra que o tempo está contra nós. 2026 começou intensamente, e já anunciamos nesta coluna que será um ano desafiador. Os primeiros capítulos confirmam: ou aceleramos a transição energética, ou continuaremos cegos diante do abismo que se abre à nossa frente.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética