Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 21 de janeiro de 2026
Quando o Nobel da Paz de 2025 foi concedido à líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, em outubro do ano passado, este jornal – assim como todos os democratas que não toleram autocratas corroendo por dentro os pilares da democracia – reconheceu o valor inequívoco da honraria. Mais do que uma distinção pessoal, tratava-se da reafirmação do compromisso do mundo civilizado com a democracia liberal, os direitos humanos e o Estado de Direito. Não era apenas María Corina a laureada, mas a coragem de todos os venezuelanos que ousaram resistir à tirania de Nicolás Maduro.
Passados apenas três meses, a líder venezuelana conseguiu a proeza de lançar na lata do lixo não só a distinção recebida, mas também a chance de ocupar um lugar à altura na História. Em sua passagem por Washington, a sra. Machado prestou-se a um papelão político. Em encontro na Casa Branca, entregou, “simbolicamente”, a medalha física do Nobel da Paz ao presidente dos EUA, Donald Trump, como “reconhecimento” por seu suposto compromisso com a liberdade venezuelana. Trump, previsivelmente, agradeceu nas redes sociais, descrevendo o gesto como “maravilhoso”.
Não se tratou de um mero presente protocolar. María Corina vulgarizou um dos prêmios mais respeitados do mundo como um objeto de decoração trumpista, transformando-o em um troféu à vaidade para um líder que há uma década sonha com o Nobel, mas jamais chegou perto de merecê-lo. Embora o Comitê do Nobel tenha reiterado que o prêmio é pessoal e intransferível, o estrago simbólico estava feito: a medalha passou a circular como peça de encenação política.
Com isso, a líder venezuelana prestou um desserviço à causa que encarnou com dignidade. O Nobel da Paz é símbolo de resistência e enfrentamento ao autoritarismo. Ao oferecê-lo a Trump, María Corina homenageou justamente um personagem de inequívoca vocação autoritária, protagonista de um dos ataques mais graves às instituições democráticas de seu país, alguém que governa como se fosse a própria lei e trata o Estado como extensão de sua vontade pessoal.
Não se trata de excentricidade passageira. Há vozes respeitáveis na Noruega classificando o gesto como “absurdo” e alertando para o risco de transformar uma das maiores honrarias internacionais em instrumento de barganha política e espetáculo – o oposto do espírito que Alfred Nobel pretendia consagrar. O que deveria permanecer como símbolo da resistência venezuelana passou a lembrar um prêmio de consolação entregue ao personagem errado.
Ao bajular Trump, María Corina, em vez de fortalecer sua legitimidade moral e reafirmar o significado internacional de sua luta por democracia na Venezuela, optou por uma performance que corrói simbolicamente o reconhecimento mais nobre que recebeu por suas ações e palavras contra a tirania chavista.
Se há algo a ser celebrado, que seja a bravura do povo venezuelano – não a encenação constrangedora de quem confundiu reconhecimento histórico com bajulação política. Porque, não raro, gestos que pretendem engrandecer alguém acabam apenas revelando, de forma cruel, a pequenez de quem os pratica. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)