Segunda-feira, 09 de março de 2026

O senhor da guerra não gosta de criança

Há um refrão que ecoa em minha memória desde a juventude: “o senhor da guerra não gosta de criança”. Renato Russo e sua Legião Urbana, com sua poesia crua e lúcida, conseguiram traduzir em música a estupidez das guerras. Hoje, aos 57 anos, percebo que aquela frase nunca foi tão atual. O mundo atravessa um momento crítico que, confesso, ainda não tinha testemunhado em toda minha vida.

Convivi com diferentes focos de conflitos e rebeliões. Alguns me marcaram profundamente, como a revolta da Praça da Paz Celestial, em Pequim, onde centenas de jovens chineses foram massacrados e até hoje não se sabe o número exato de mortos. A chamada “Primavera Vermelha”, que foi uma onda de protestos e movimentos populares em países do Leste Europeu contra regimes autoritários, também deixou cicatrizes na memória coletiva.

No Kosovo, as disputas raciais entre etnias diferentes mostraram ao mundo a brutalidade da intolerância. E a Guerra das Malvinas, ainda nos anos 1980, alimentava nossa fantasia juvenil: olhávamos para o céu acreditando ver aeronaves britânicas carregando bombas atômicas. Eram tempos diferentes, mas a violência era a mesma.

As guerras atuais, no entanto, são travadas sem trincheiras, sem colunas de soldados marchando para o matadouro. Agora, a tecnologia substitui o sangue e o suor humano por drones, algoritmos e armas cirúrgicas, mas igualmente perversas. As famílias já não precisam sofrer com a convocação obrigatória de seus filhos, mas continuam a sofrer com a destruição invisível que a guerra moderna provoca. É uma guerra sem rosto, sem fronteira clara, mas com efeitos devastadores.

Enquanto escrevo estas linhas, me pergunto se não estamos vivendo uma nova guerra mundial. Se não estivermos, falta pouco. Todos têm suas opiniões, suas torcidas organizadas, seus achismos alimentados por desinformação e, ironicamente, por inteligências artificiais que deveriam servir ao conhecimento, mas muitas vezes amplificam o caos. Nós, que outrora éramos um povo pacífico, apaixonado por futebol e música, agora nos vemos divididos em trincheiras digitais. É um novo momento de trevas, e encontrar silêncio, respirar fundo e se dedicar a uma leitura profunda talvez seja um dos poucos atos de resistência que ainda nos restam.

Mas há uma guerra ainda mais silenciosa e igualmente devastadora: a guerra contra o planeta. A indústria do petróleo, movida pela ganância, continua instrumentalizando a morte, contaminando o ar, os rios e o solo. A guerra é, paradoxalmente, um dos maiores emissores de gases de efeito estufa, e ao mesmo tempo desvia a atenção das nações da verdadeira batalha que deveríamos travar: contra o petróleo, seus derivados e contra o consumo desenfreado que ameaça a vida na Terra. Enquanto bombas explodem, toneladas de piche e óleo são espalhadas pelas estradas e cidades, impermeabilizando o solo, agravando enchentes e contaminando ainda mais o ambiente.

O senhor da guerra não gosta de criança porque não gosta de futuro. Ele gosta de poder e de dinheiro. As crianças, com seus sonhos e sua inocência, são apenas vítimas colaterais de um sistema que privilegia a destruição em vez da construção. Se quisermos honrar a memória das músicas que nos ensinaram a pensar, das revoltas que nos mostraram a coragem, e das tragédias que nos lembraram da fragilidade humana, precisamos escolher outro caminho. O caminho das energias limpas, dos negócios sustentáveis, da vida em equilíbrio com o planeta.

Porque, no fim das contas, a verdadeira vitória não será conquistada com armas, mas com sabedoria. E sabedoria é justamente aquilo que falta ao senhor da guerra.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

Contato: rena.zimm@gmail.com

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