Sábado, 21 de março de 2026

“O ser humano é uma máquina de ganhar peso”, diz endocrinologista

O ser humano é uma máquina de ganhar peso e a obesidade, uma fábrica de tragédias para a saúde, destaca o endocrinologista João Salles, diretor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes e secretário-geral da Federação Latino-Americana de Obesidade. Por isso, ele afirma que as canetas emagrecedoras podem beneficiar a maior parte da população acima do peso e que os riscos são pequenos, mas só para quem faz o uso adequado. Em entrevista, Salles acrescenta que as formas mais perigosas de obesidade nem sempre são as mais evidentes e que certo tipo de magro têm a forma mais nociva de gordura.

* O Brasil tem 62,6% de sua população adulta acima do peso, segundo o Vigitel/Ministério da Saúde. Quem pode usar as canetas e drogas do mesmo gênero?

Em primeiro lugar, esse percentual pode ser ainda maior. O Vigitel é um levantamento feito por telefone e as pessoas costumam ser condescendentes com si mesmas. Brincamos dizendo que, ao responder, as pessoas perdem três quilos e crescem dois centímetros. A maior parte dessas pessoas seria elegível. Essas drogas são recomendadas para pessoas com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, como doenças cardíacas e diabetes. Mas, na prática, sabemos que controlar o sobrepeso, mesmo sem comorbidades, é importante porque previne o aparecimento de problemas associados à obesidade.

* E quem pode ser considerado com sobrepeso ou com obesidade?

Em epidemiologia se emprega o índice de massa corporal (IMC), que mede a proporção entre altura e peso. Pessoas com IMC entre 25 e 29,9 têm sobrepeso. Pessoas com IMC superior a 30 têm obesidade, classificada em quatro níveis. Mas o IMC não vê distribuição de gordura e isso faz toda diferença em clínica.

* De forma geral qual seria o público-alvo das canetas?

Pessoas com IMC acima de 27 e alguma comorbidade e isso inclui, por exemplo, dor lombar, depressão, apneia e não somente problemas cardiovasculares e metabólicos. E qualquer pessoa, mesmo sem comorbidades, e IMC superior a 30.

* Pessoas com sobrepeso menor que isso podem fazer uso das canetas?

As canetas não foram feitas para elas, mas a pressão estética da nossa sociedade é imensa. Somos um país onde impera obsessão por vaidade, com mais de oito mil quilômetros de litoral e exibição nas praias. E nossa sociedade é cruel, injusta com quem engorda. Se você ganha peso, é considerado preguiçoso. Engordar não tem nada a ver com falta de força de vontade e disposição. Obesidade é uma doença crônica. Mas o uso meramente recreativo não é recomendável.

* Canetas são seguras?

Usadas corretamente, sim, muito. Na relação risco-benefício, os benefícios são muito maiores que os riscos. Há ganhos adicionais, como a redução de 20% na mortalidade por doenças cardiovasculares, além de, é claro, diabetes. Essas drogas atuam, por exemplo, contra doença renal, insuficiência cardíaca, gordura no fígado, doença arterial periférica e uma série de outras.

* E os casos de possíveis efeitos colaterais graves, como câncer de pâncreas?

Nada disso foi comprovado. Os efeitos mais frequentes são problemas gastrointestinais contornáveis. Existem casos raros de outros problemas, como os oftálmicos. E é preciso ter cuidados com pedra na vesícula. Quanto mais gente usar, mais efeitos colaterais veremos. Isso acontece com qualquer medicamento. Mas a segurança vale somente para quem faz o uso adequado. O uso fora de bula nem comento porque é obviamente perigoso.

* Que cuidados precisam ser tomados ao se usar canetas?

Primeiro, procurar a orientação de um médico ético, comprometido com a saúde do paciente. Fazer exames, como os metabólicos e de vesícula. Nunca começar com doses elevadas, fazer progressão de dosagem a cada quatro semanas, evitar comida gordurosa porque aumenta a náusea, beber mais água porque esses medicamentos reduzem a sede. São cuidados fundamentais.

* E as canetas devem ser usadas por quanto tempo?

São de uso contínuo porque a obesidade é crônica e recidiva, isto é, volta. E é preciso mudar o estilo de vida, caneta sozinha não basta. Fazer atividade física regular, 150 minutos por semana, pelo menos, distribuídos entre exercícios de força e aeróbicos.

* Por que engordamos tanto?

O ser humano é uma máquina de ganhar peso. É da condição humana acumular gordura. O problema é o excesso calórico dos alimentos. E quanto mais se come, mais o corpo se adapta a querer mais. Vira uma bola de neve. E onde mais se acumula? No abdômen. E aí está o grande perigo.

* Por quê?

Porque a gordura abdominal se espalha pelo fígado, pâncreas, rins, coração, músculos esqueléticos. O corpo passa a sofrer com um estado de inflamação permanente, isso traz risco de câncer. A obesidade é uma fábrica de tragédias. (Com informações do jornal O Globo)

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