Sábado, 10 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de janeiro de 2026
A indústria do petróleo é hoje um dos maiores paradoxos da humanidade. De um lado, sustenta economias e padrões de consumo; de outro, empurra o planeta para uma crise climática sem precedentes. Essa complexidade se intensifica quando líderes mundiais, em vez de guiar seus países rumo à transição energética, preferem se alinhar aos interesses fósseis. O caso mais emblemático é o do presidente americano Donald Trump.
Não é de se espantar: antes de ocupar a Casa Branca, Trump já se apresentava como uma figura pitoresca na televisão, um “chefe” que tirava prazer em demitir funcionários diante das câmeras. O reality show The Apprentice transformava a crueldade em espetáculo, e o bordão “You’re fired!” virou marca registrada. Ironia do destino: o homem que fazia da demissão um entretenimento agora demite compromissos internacionais vitais para o futuro da humanidade.
Como apreciador de Os Simpsons, não posso deixar de lembrar que o seriado já havia antecipado Trump como presidente dos EUA. Na época, parecia uma piada inconcebível, uma sátira que rendia boas risadas. Mas a ficção se tornou realidade — e pior, realidade reeleita. O que era caricatura virou política oficial.
A ausência dos Estados Unidos na COP30 é um sintoma grave. Trump não apenas se recusou a participar, como também retirou o país da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima e do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. O IPCC é a principal autoridade científica mundial sobre aquecimento global, responsável por consolidar dados e orientar políticas públicas. Abandoná-lo é como jogar fora o manual de instruções em meio a um incêndio.
E não se trata apenas de decisões federais. Diversos governos subnacionais — estados como Califórnia e Nova York — têm se posicionado contra Trump, mantendo compromissos climáticos e investindo em energias limpas. Pesquisas recentes mostram que a maioria da população americana apoia medidas de combate às mudanças climáticas, em contraste com a postura negacionista da Casa Branca. Ou seja, Trump governa sem respaldo popular nesse tema crucial.
Governantes têm uma missão junto aos seus mandatos: proteger o futuro de seus cidadãos. Trump, porém, vai na contramão do que a humanidade precisa. Sua retórica tenta soar como a de um estadista, mas na prática não passa de um “office boy de luxo” da indústria petrolífera. A polarização política nos EUA alimenta um verdadeiro “delírio coletivo”, em que parte da população acredita que retroceder em compromissos ambientais é sinal de soberania.
A geopolítica sempre foi complexa, mas hoje parece um tabuleiro de xadrez que caiu no chão e misturou todas as peças. Não há estratégia clara, apenas movimentos caóticos que favorecem interesses imediatos. A saída dos EUA de mais de 60 organizações internacionais, incluindo o IPCC, é um erro estratégico monumental. Ao se isolar, Trump não apenas fragiliza seu país, mas compromete a cooperação global necessária para enfrentar a crise climática.
Em última análise, Trump está conduzindo os Estados Unidos à beira do abismo — e, junto, arrasta toda a humanidade. O petróleo pode ter sido o motor da modernidade, mas insistir nele como se fosse solução é condenar o planeta a um futuro de colapso. O desafio é claro: ou limpamos a economia dos combustíveis fósseis, ou seremos todos peças perdidas nesse tabuleiro caótico.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética