Terça-feira, 06 de janeiro de 2026

O verão de 2026 e o alerta das ondas de calor

O verão de 2026 já se anuncia como um dos mais extremos da história recente. Porto Alegre, que nos últimos anos têm enfrentado sucessivas ondas de calor, voltou a registrar temperaturas próximas dos 40°C, reforçando a sensação de que o clima da cidade mudou de forma estrutural. No interior do Rio Grande do Sul, localidades como Uruguaiana e Quaraí chegaram a ultrapassar os 43°C, enquanto São Luiz Gonzaga, em medições pontuais, já figurou entre as cidades mais quentes do mundo uma curiosidade que ilustra como regiões subtropicais estão cada vez mais expostas a extremos climáticos.

No Brasil, capitais como Cuiabá e Teresina continuam liderando os recordes nacionais, com máximas superiores a 42°C em dias consecutivos. Globalmente, cidades do Oriente Médio e da Ásia, como no Irã, Kuwait e sul da Índia, têm registrado temperaturas entre 45°C e 50°C durante ondas intensas. É importante destacar que não existe um ranking oficial universal em tempo real sobre a cidade mais quente do mundo hoje, já que os dados são atualizados por serviços meteorológicos nacionais e pela Organização Meteorológica Mundial (WMO). Ainda assim, os números revelam uma tendência inequívoca: o planeta está aquecendo em ritmo acelerado.

Tendência global em 2026

Pesquisas recentes indicam que 2026 pode entrar para a lista dos anos mais quentes desde 1850, consolidando uma sequência de recordes que já vinha sendo observada em 2024 e 2025. O aquecimento global contínuo tem ampliado a frequência e intensidade das ondas de calor, com registros muito acima da média histórica em várias cidades brasileiras e europeias. Esse cenário confirma o alerta das grandes agências científicas: estamos diante de uma crise climática sem precedentes.

O mecanismo do efeito estufa

O aquecimento global é resultado da intensificação do efeito estufa. Em condições naturais, gases como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O) retêm parte da radiação solar, mantendo a Terra em uma temperatura média de cerca de 15°C. O problema surge quando atividades humanas queima de combustíveis fósseis, desmatamento desenfreado e queimadas aumentam a concentração desses gases. Isso cria uma cobertura mais espessa na atmosfera, impedindo que o calor escape e elevando a temperatura média global. O resultado é o aumento da frequência e intensidade das ondas de calor, secas prolongadas e eventos climáticos extremos.

Ciclos biogeoquímicos em desequilíbrio

Os ciclos biogeoquímicos — carbono, nitrogênio, água — são os mecanismos que mantêm o equilíbrio da vida no planeta. Quando o carbono é emitido em excesso e não consegue ser reabsorvido por florestas ou oceanos, o ciclo se rompe. O mesmo ocorre com o nitrogênio, cujo uso em fertilizantes gera poluição e desequilíbrio ecológico. Esses ciclos, que deveriam funcionar como engrenagens sincronizadas, estão sendo sobrecarregados pela ação humana, criando um efeito cascata que compromete ecossistemas inteiros.

Humanos versus biodiversidade

Os seres humanos podem criar soluções para enfrentar ondas de calor: cidades verdes, telhados refletivos, sistemas de alerta meteorológico, eficiência energética. Mas a biodiversidade não dispõe desses mecanismos. Espécies adaptadas a climas específicos não conseguem migrar ou se ajustar na mesma velocidade. Segundo relatório da ONU, até 1 milhão de espécies podem estar em risco de extinção nas próximas décadas se o ritmo atual de aquecimento continuar. Insetos polinizadores, fundamentais para a agricultura, já mostram declínios alarmantes, o que ameaça diretamente a produção de alimentos. A exclusão de habitats naturais e a expansão urbana intensificam ainda mais esse processo.

Consequências sociais e econômicas

As ondas de calor não são apenas desconforto climático. Elas trazem:

• Perda de produção agrícola, já que culturas como milho e soja não resistem a temperaturas extremas.

• Propagação de doenças tropicais, como dengue e chikungunya, que encontram ambiente favorável em climas quentes e úmidos.

• Apagões energéticos, pois o consumo dispara em busca de refrigeração.

• Desordem social, com migrações forçadas e aumento da desigualdade.

Esses impactos mostram que o calor extremo é um problema sistêmico, capaz de desestabilizar sociedades inteiras.

A resposta internacional: COPs e metas

As Conferências das Partes (COPs) são fóruns globais onde países tentam estabelecer metas de redução de emissões. O Acordo de Paris fixou o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5°C. No entanto, os relatórios mais recentes mostram que as ações nacionais ainda são tímidas diante da velocidade da crise. O tempo corre mais rápido do que as negociações: cada ano de atraso significa mais calor, mais perdas e menos chances de reversão.

Mensagens claras sobre o impacto

As ondas de calor de 2026 são mensagens claras da Terra. Porto Alegre, Uruguaiana, Quaraí, São Luiz Gonzaga e tantas outras cidades já sentem na pele o impacto. O planeta nos alerta com números recordes, mas a resposta política e social ainda não acompanha a urgência. Se não acelerarmos, o futuro próximo será marcado por escassez de alimentos, novas doenças, extinção em massa e instabilidade social. O verão de 2026 não é apenas mais um verão quente: é um chamado para agir antes que o calor se torne insuportável e irreversível.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética.

 

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