Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Olha o que fizeram com as nossas ferrovias

Em 1994 a América Latina Logística venceu o leilão de privatização da Malha Sul de ferrovias. Em 2015 fundiu-se à Rumo Logística, do grupo Cosan, assumindo um contrato de concessão que expira em 2027. Sem investir na modernização dos ramais recebidos, prevista contratualmente, a Rumo Logística manteve os antigos trilhos e as locomotivas ultrapassadas e lentas recebidas, tornando a opção ferroviária pouco atrativa. Como consequência, a malha ferroviária operacional foi enormemente reduzida. No Rio Grande do Sul uma grande parte dos 3.800 quilômetros de ferrovias recebidas pela concessionária foi desativada, restando hoje em operação apenas 921 quilômetros (o trecho Cruz Alta-Porto de Rio Grande). Em Santa Catarina, dos 1.210 quilômetros de ferrovias concedidas, a Rumo Logística opera em apenas 210 quilômetros.

Sem poder contar com uma rede ferroviária integrada e eficiente, o custo logístico aumentou muito, reduzindo a competitividade do agronegócio e da indústria gaúcha em comparação com outras regiões, aprofundando a dependência do modal rodoviário, muito agravada pelo elevado custo dos pedágios (um caminhão, para deslocar-se por rodovia de Porto Alegre até o Porto de Rio Grande gasta mais em pedágios do que com combustível). Setores como a avicultura, a suinocultura e a pecuária leiteira, que dependem fortemente de milho e da soja (70% do custo do produto obtido provém das despesas com ração, custando o transporte de grãos por ferrovias de 30 a 50% menos do que por caminhão). Em decorrência, municípios não servidos por ramais ferroviários operativos passaram a padecer uma desindustrialização silenciosa, com êxodo dos investimentos e uma menor diversificação produtiva.

Para piorar a situação, a Rumo Logística passou a remover os trilhos das ferrovias desativadas nas regiões da Serra e do Vale do Taquari, levando-os para Santa Catarina. Os produtores reclamaram exigindo indenização pelos investimentos que deixaram de ser feitos na modernização dos ramais concedidos e pela delapidação das ferrovias, passando o Ministério Público a exigir uma imediata suspensão do desmonte em curso e explicações detalhadas sobre o que foi retirado e a base técnica e contratual envolvida. Entidades empresariais, como a Federasul, acompanharam as críticas, pedindo providências.

Questionada a respeito a concessionária manifestou a intensão de renovar o contrato, condicionado a manter no Rio Grande do Sul apenas a parte mais rentável da malha, de 860 km (só quer o “filé mignon”), enxergando a concessão de ferrovias como um negócio onde apenas o lucro importa, desconsiderando que o interesse público vai muito além de meros condicionantes de mercado.

O Ministério dos Transportes avalia realizar um novo leilão. Temendo que os valores da devolução onerosa a ser cobrada sejam investidos em ativos da Rumo Logística localizados em outras regiões (talvez no Paraná ou em São Paulo), o governo estadual manifestou-se contra a renovação da concessão, defendendo que a indenização devida seja usada para atrair novos operadores.

Extremamente decepcionante é constatar a inércia dos agentes públicos responsáveis, ao longo das décadas em que a rede ferroviária gaúcha concedida padeceu um calamitoso desmonte, um ativo público de enorme valor estratégico para o desenvolvimento regional.

 

Eduardo Allgayer Osorio
Engenheiro Agrônomo, Professor Titular da UFPEL, aposentado

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