Sábado, 29 de novembro de 2025
Por Redação do Jornal O Sul | 29 de novembro de 2025
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, pela primeira vez, diretrizes globais abrangentes destinadas a aprimorar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento da infertilidade — uma condição médica e social que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e que, segundo especialistas, ainda recebe atenção insuficiente nos sistemas de saúde de muitos países.
“No nível global, uma em cada seis pessoas enfrenta a infertilidade ao longo da vida. Esse problema afeta indivíduos e casais de todas as regiões e níveis de renda e, ainda assim, o acesso a cuidados seguros e acessíveis continua sendo muito desigual”, destacou à imprensa Pascale Allotey, diretora do Departamento de Saúde Sexual e Reprodutiva da OMS. Ela acrescentou que as lacunas de atendimento são observadas inclusive em países com recursos robustos, onde procedimentos de alta complexidade podem ser tecnicamente disponíveis, mas permanecem inacessíveis para grande parte da população devido aos custos. “Este guia propõe um marco unificado e baseado em evidências para garantir que a atenção à fertilidade seja segura, eficaz e acessível para todos que dela necessitem”, acrescentou.
A OMS define a infertilidade como a incapacidade de alcançar uma gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares sem proteção. Essa definição, adotada internacionalmente, busca padronizar critérios clínicos e orientar políticas públicas, permitindo que sistemas de saúde planejem ações mais adequadas, desde o atendimento básico até intervenções especializadas.
Segundo a organização, a condição pode provocar angústia emocional significativa, estigmatização social e dificuldades econômicas para indivíduos e casais. Em muitos contextos, especialmente em países de renda baixa e média, os custos associados a exames, consultas, medicamentos e tratamentos recaem quase inteiramente sobre os pacientes, o que frequentemente implica despesas consideradas “catastróficas”. Muitas vezes, famílias precisam contrair dívidas ou comprometer boa parte de sua renda para arcar com procedimentos que, embora necessários, permanecem fora do alcance financeiro da maioria.
“Em alguns contextos, um único ciclo de fecundação in vitro (FIV) pode custar o dobro da renda anual média de um domicílio”, ressalta o órgão. Tal realidade evidencia a urgência de políticas de financiamento público ou mecanismos de proteção financeira capazes de reduzir essas disparidades.
As diretrizes reúnem 40 recomendações que defendem a integração da fertilidade em estratégias, serviços e mecanismos de financiamento nacionais de saúde, reforçando que a infertilidade deve ser tratada como um componente essencial da saúde reprodutiva e não como um serviço opcional ou de luxo. As orientações propõem que os países incorporem o cuidado com a fertilidade em planos de saúde pública, ampliem a capacitação de profissionais e estabeleçam protocolos clínicos baseados em evidências.
O documento também apresenta orientações detalhadas sobre todas as etapas da atenção clínica — da triagem inicial e diagnóstico ao tratamento —, com ênfase na necessidade de ampliar a investigação de fatores masculinos, que frequentemente recebem menos atenção do que os fatores femininos, apesar de contribuírem de maneira significativa para muitos casos de infertilidade. Entre as recomendações, destaca-se a importância de oferecer avaliações completas para ambos os parceiros, promovendo um atendimento mais equitativo e eficaz.
As recomendações abrangem desde abordagens de manejo simples, como aconselhamento, ajustes de hábitos de vida e tratamentos farmacológicos, até intervenções de maior complexidade, como inseminação intrauterina e fecundação in vitro. A OMS ressalta que a escolha do tratamento deve sempre considerar a infraestrutura disponível, a capacidade dos serviços e as necessidades específicas de cada paciente.
A organização também incentiva o investimento em ações de prevenção voltadas aos principais fatores de risco da infertilidade, incluindo infecções sexualmente transmissíveis não tratadas, exposição a substâncias tóxicas, problemas de saúde reprodutiva não diagnosticados, além do tabagismo, que continua sendo um dos fatores evitáveis mais relevantes associados à redução da fertilidade.
Por fim, a organização recomenda ainda que cada país “adapte essas recomendações aos seus contextos locais e acompanhe os avanços alcançados”, reforçando que a implementação eficaz depende de políticas sensíveis às realidades culturais, econômicas e sociais de cada região.