Segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Onde o médico não chega, a tecnologia alcança: a nova aliada contra a depressão no RS

O Rio Grande do Sul aparece há anos entre os estados com maiores taxas de suicídio e internações associadas à depressão, segundo séries do Ministério da Saúde e do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS).

Em 2025, o Painel de Monitoramento da Saúde Mental indicou novo crescimento dos afastamentos previdenciários por transtornos mentais no estado, pressionando o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e afetando diretamente a produtividade. Cada licença prolongada representa sofrimento humano, perda de renda e impacto fiscal que recai sobre os municípios e sobre o orçamento público.

O problema central não está na ausência de diagnóstico clínico, mas no tempo de espera. Em regiões da Campanha e da Metade Sul, a escassez de psiquiatras e psicólogos faz com que muitos casos só cheguem ao sistema quando já estão agravados.

A distância geográfica e a dificuldade de acesso transformam a depressão em um problema invisível até se tornar urgente. É nesse ponto que a inteligência artificial (IA) passa a ter papel estratégico.

A tecnologia já permite analisar padrões de fala, escrita e expressões faciais em atendimentos presenciais e por telemedicina. Esses sistemas não fazem diagnósticos nem substituem profissionais. Eles funcionam como triagem qualificada, capaz de identificar sinais precoces e priorizar quem precisa ser atendido com urgência. Na prática, reduzem atrasos e organizam o fluxo assistencial em um sistema historicamente sobrecarregado.

A tecnologia não troca o aperto de mão pelo código. Ela é o alerta que encurta distâncias para que o socorro chegue antes da dor se tornar silêncio.

Esse uso ganha ainda mais relevância em um estado com alta cobertura de saúde suplementar e um ecossistema ativo de healthtechs, concentrado em Porto Alegre e na região metropolitana, mas com vazios assistenciais profundos no interior.

Para quem vive longe dos grandes centros, a telemedicina apoiada por IA deixa de ser comodidade urbana e passa a ser condição mínima de acesso ao cuidado.

Essa transformação já ocorre sob regras claras. Em 2026, o Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil não é mais promessa, mas base regulatória em fase de implementação setorial.

Sistemas aplicados à saúde mental são classificados como de alto risco, o que exige supervisão humana contínua, transparência no funcionamento dos algoritmos e responsabilização clara em caso de erro. Para o paciente gaúcho, isso significa segurança jurídica.

Dados de voz, texto e imagem não podem ser utilizados para discriminação, repasse indevido ou decisões automatizadas sem mediação humana. O acolhimento final é sempre de uma pessoa, não de um software.

Quando a IA assume a burocracia e a leitura objetiva dos dados, o profissional de saúde recupera tempo, escuta e presença. A tecnologia não desumaniza o cuidado. Ela devolve humanidade ao sistema.

A proteção de dados já não é tema abstrato. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) funciona como pilar consolidado e impede que informações sensíveis sejam usadas fora da finalidade clínica.

O receio de que um diagnóstico vaze para o empregador ou para o plano de saúde precisa ser enfrentado com governança, não com negação tecnológica. O risco maior está em manter estruturas ultrapassadas, incapazes de responder à demanda real.

Há também um ganho estratégico. Ao adotar IA com governança, o Rio Grande do Sul deixa de importar soluções fechadas e passa a construir um modelo próprio de cuidado digital ético. Isso posiciona o estado não apenas como usuário, mas como referência nacional em saúde digital responsável, capaz de exportar boas práticas e reduzir a dependência tecnológica externa.

O debate precisa sair do medo e entrar na decisão pública. Não se trata de escolher entre o estetoscópio e o algoritmo, mas de compreender que, na luta contra a depressão, a tecnologia organiza o caminho para que o cuidado humano chegue antes.

Negar a IA na saúde mental em 2026 é aceitar que filas continuem escondendo o sofrimento. O Rio Grande do Sul tem condições de liderar essa transição e transformar tecnologia em escuta, proteção e presença.

* Régis de Oliveira Júnior, jornalista e especialista em inteligência artificial

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