Segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 2 de fevereiro de 2026
Toda família tem um sobrenome, mas algumas têm história. Outras têm lenda. A família Corso parece ter as três coisas misturadas, e um pouco de pólvora no cardápio.
A origem do nome aponta para a Córsega, aquela ilha brava do Mediterrâneo que aprendeu cedo que o mar é bonito, mas não é gentil. Durante séculos, aquelas costas foram cenário de ataques, resistências e disputas navais.
Ali, surgiram os lendários corsários, figuras ambíguas da história: não eram exatamente piratas, mas também não eram santos. Operavam naquela zona cinzenta onde coragem, sobrevivência e oportunismo dividiam o mesmo convés.
Pirata rouba. Corsário… rouba com autorização. Talvez por isso o nome tenha atravessado o oceano, embarcado nos fluxos da imigração italiana e desembarcado no sul do Brasil com esse jeito tão particular de encarar a vida: peito aberto, olhar firme, fala alta e uma presença que chega antes da pessoa sentar.
Porque quando um Corso entra num lugar, ninguém pergunta se chegou alguém. Todo mundo sabe…
Mas o que realmente diferencia os Corsos não é a história oficial. É o elenco paralelo. Porque, se tem uma coisa que nunca faltou em navio corsário, era um maluco, ou vários…
Sempre havia aquele sujeito que parecia ter corpo fechado. O primeiro a pular no meio dos inimigos. O que enfrentava três caravelas armadas com um barco menor, uma ideia discutível e uma confiança que beirava a insanidade.
Era o tipo que, mesmo quando a batalha era perdida, sobrevivia, nem que tivesse que usar tapa-olho e perna de pau para o resto da vida, hoje ele usa prótese de titânio.
Levava golpe, tomava tombo, caía e levantava. Virava lenda dentro da própria tripulação. Toda família Corso tem um desses ou mais, creio serem os verdadeiros Highlanders da linhagem. Aquele que passa por coisas que não fazem sentido físico e estatístico.
Que deveria ter ficado pelo caminho, mas não fica, mesmo tendo desafiado a morte olhando no fundo dos seus olhos. Que parece ser protegido por alguma cláusula secreta da existência, ou então possui uma forte proteção de seus antepassados corsários.
Não precisa explicar. Quem é da família reconhece… E junto com ele vêm outras marcas clássicas do clã: a voz sempre acima do tom médio, geralmente destacada em torno da mesa de jantar, quando reunidos então,
a intensidade é tanta, que faz parecer briga diante dos vizinhos, quando é só mais uma conversa normal na família Corso.
O jeito direto que não pede licença para existir, e aquela certeza inabalável de que, se tiver que ir, vai, mesmo que ninguém mais vá, afinal esse é o caos organizado que só a família Corso entende.
Na família Corso, isso nunca foi defeito. Sempre foi contado com um certo orgulho engraçado, quase como quem diz: “É… sempre teve um assim no grupo”.
E tinha mesmo. Nos navios, nas batalhas, na história e hoje na vida contemporânea. Com o tempo, os Corsos largaram o mar, trocaram as velas por caminhonetes, as espadas por opiniões fortes e os portos por mesas de bar.
Mas algumas características permaneceram intactas: a lealdade interna, a união quase tribal, a resiliência diante do aperto e esse espírito de combate que não desaparece, só muda de cenário. Tive o privilégio de conhecer os Corsos de perto. Inclusive, um deles foi meu chefe.
E aí eu entendi outra coisa sobre os corsários: eles não exploravam por maldade, exploravam porque acreditavam que todo mundo ali aguentava o tranco. Se o cara estava no navio, era porque sabia nadar. Se não sabia, aprendia no susto.
Às vezes, a cobrança vinha forte. Às vezes, o tom passava do ponto. Mas nunca faltou reconhecimento, confiança e aquele respeito silencioso que só existe entre quem atravessou tempestades juntos, e é aí que grandes amizades se consolidam.
Apesar de todas as imperfeições, como em qualquer família, os Corsos carregam algo que o tempo não apaga: uma espécie de código interno que transforma barulho em cumplicidade, aperto em história para contar depois e bronca em “te cuido porque te quero vivo, eu te protejo”.
São gente que atravessou mares, mudou de continente, trocou as Galés por caminhonetes, espadas por chimarrão e, mesmo assim, continua carregando no peito aquele fogo antigo da ilha brava.
Hoje fazem parte da alma gaúcha não por acaso, mas porque onde tem um Corso tem resistência, tem alguém que não se entrega, tem mesa farta para amigo e tem amigos que, no fundo, nunca deixam o outro afundar sozinho.
E isso, no Rio Grande do Sul, já é quase título de nobreza abagualado!
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho