Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Os desafios do novo ministro da Justiça, somados ao fortalecimento de Rui Costa — apontado como uma das pedras no sapato do ex-ministro Lewandowski

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o advogado-geral da Petrobras, Wellington César Lima e Silva, para assumir a cadeira de Ricardo Lewandowski no Ministério da Justiça e Segurança Pública. Prevaleceu a preferência da ala petista da Bahia com peso no governo – o chefe da Casa Civil, Rui Costa, e o senador Jaques Wagner. Com origem no Ministério Público, Lima e Silva é historicamente ligado a ambos, que, segundo relatos da imprensa, já haviam tentado patrocinar sua indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Os laços do novo ministro com o PT são estreitos. Ele foi procurador-geral de Justiça da Bahia quando Jaques Wagner era o governador do Estado. Foi também, por breve período, ministro da Justiça no governo Dilma Rousseff – até ter sua permanência encerrada, ironicamente, por decisão que contou com o voto do então ministro do STF Ricardo Lewandowski, que entendeu não ter sido cumprida a exigência de desligamento do Ministério Público. Lima e Silva ocupou ainda a Secretaria de Assuntos Jurídicos da Presidência até julho de 2025, quando foi para a Petrobras.

Esses vínculos, somados ao fortalecimento de Rui Costa – apontado como uma das pedras no sapato de Lewandowski na condução da pasta –, recomendam cautela. Como é comum na cosmologia lulopetista, o movimento decorre menos de um debate público sobre a política de segurança e mais de um rearranjo palaciano, típico de um governo que frequentemente prioriza seu equilíbrio interno em detrimento de respostas a problemas concretos do País.

Feita essa ressalva, convém reconhecer um aspecto positivo no novo ministro: a discrição. O Brasil não precisa de um Ministério da Justiça convertido em palco político. Este jornal criticou a gestão de Flávio Dino pelo viés excessivamente ideológico, pela retórica inflamada, pelo exibicionismo e pela lógica permanente de confronto com o Congresso. Em vez de atuar como articulador institucional, Dino preferiu transformar divergências políticas em disputas morais, tensionando relações que deveriam ser funcionais à governabilidade. Esse estilo teve custos.

A chegada de Lewandowski ao ministério, alguém com perfil evidentemente mais sereno, ajudou a afastar da pasta a imagem de arena ideológica. A despeito do vínculo direto de Lima e Silva com o PT, não há motivo imediato para supor um retorno ao padrão Dino – que, se serviu aos propósitos de Lula enquanto esteve na Esplanada, pouco serviu para o Brasil. Dito isso, mudança de tom não pode ser confundida com solução automática. A discrição só será virtude se acompanhada de ação efetiva.

O País vive uma crise persistente de segurança pública, marcada pela expansão do crime organizado, pelo fortalecimento de facções de perfil mafioso, pelo domínio territorial em áreas urbanas e pela sensação difusa de medo. A ausência de uma estratégia nacional consistente, capaz de integrar União, Estados e municípios, articular inteligência, polícia e sistema prisional e enfrentar o poder econômico do crime, talvez seja hoje a maior omissão do Estado brasileiro. E o Ministério da Justiça ocupa posição central nesse vazio.

Nesse contexto, o verdadeiro teste do novo ministro não será evitar holofotes, mas demonstrar habilidade política. Será indispensável negociar com o Congresso a aprovação de projetos relevantes na área de segurança – tarefa que Lewandowski, em parte por barreiras internas de setores do próprio governo, não conseguiu cumprir, e que Flávio Dino, por escolha política, inviabilizou ao tratar o Parlamento como adversário.

Lima e Silva pode reunir discrição e capacidade técnica, mas precisará exibir alta capacidade política. Se o novo ministro quiser contrariar o ceticismo que cerca sua nomeação, terá de mostrar, desde o início, que sua lealdade maior é com o interesse público, não com o PT ou com seus padrinhos no governo. Lula não dispõe do luxo de nomear um titular da Justiça que sirva apenas de tampão até as eleições. A crise da segurança pública é grave e exige ação imediata, coordenação política e decisões impopulares, se necessário. Submetê-la a cálculos eleitorais ou tratá-la como tema secundário seria não apenas um erro político, mas uma grave irresponsabilidade com o País. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)

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