Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 25 de maio de 2026
A historiadora e jornalista americana Anne Applebaum, de 61 anos, escreveu, nas últimas três décadas, obras centrais para entender tanto o totalitarismo soviético quanto o atual retrocesso democrático no mundo ocidental. Recebeu o Pulitzer em 2004 por “Gulag” e sublinhou um padrão no avanço autocrático, com a instrumentalização da Justiça para sufocar as oposições e facilitar o enriquecimento pessoal de autocratas e seus aliados.
Em entrevista ao jornal O Globo, ela estabelece paralelos alarmantes com o que agora se vê em Washington, do “assalto aos cofres públicos” pelo trumpismo à tentativa de exportação da cartilha extremista do Faça os Estados Unidos Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês), em modus operandi “semelhante ao dos bolcheviques”, com interferências diretas da Casa Branca em pleitos mundo afora, como “se verá no Brasil este ano”.
Applebaum bateu duro no fundo bilionário criado esta semana pelo presidente Donald Trump, com dinheiro do contribuinte americano, para indenizar aliados que alegam perseguição política durante o governo Joe Biden. O anúncio foi feito logo após determinação do governo que impediu a Receita Federal de conduzir investigações fiscais ao chefe do Executivo, seus familiares e empresas.
1) Com as pesquisas apontando o favoritismo do Partido Democrata nas eleições de novembro, quando o Congresso estará em jogo, crê que a Casa Branca, além do redesenho de distritos eleitorais, irá tentar burlar as regras para beneficiar o Partido Republicano?
Tenho certeza disso. Os EUA são comandados hoje por um presidente que tentou trapacear nas eleições de 2020, e vai fazê-lo de novo se necessário. E agora o trumpismo sabe que tem à disposição múltiplas ferramentas para tentar manipular o pleito. Em alguns estados, já buscam retirar nomes das listas de eleitores de forma arbitrária e partidarizada. Muitos governadores afirmam ter receio de que a Agência de Imigração (ICE, na sigla em inglês) seja usada pela Casa Branca no dia da eleição para coagir cidadãos de grupos que votam majoritariamente com os democratas a ficar em casa. E, claro, em caso de derrota, questionamentos legais sobre o resultado por parte dos governistas pipocarão. A oposição está se preparando para esse cenário, diante da probabilidade real de ter de atuar decisivamente no dia da votação e nos tribunais.
2) As instituições americanas são resilientes para evitar um cenário nebuloso durante e após a contagem dos votos?
Algumas unidades da federação estão mais preparadas do que outras e, aqui, são elas que comandam o processo eleitoral (diferentemente do Brasil, não há Justiça Eleitoral nos EUA). Tudo vai depender de até onde o trumpismo irá. Um dado importante é que, em alguns locais, entre eles os estados-pêndulo de Arizona, Geórgia e Pensilvânia, militantes declaradamente negacionistas (propagadores da mentira de que Trump venceu Joe Biden) se movimentaram de 2020 para cá e conquistaram indicações para postos com capacidade decisória para interferir, em instâncias diversas, no pleito. Há gente em posição-chave, outros em cargos menos cruciais, mas todos se posicionaram de forma planejada e estratégica.
3) A Casa Branca acaba de interferir, sem sucesso, nas eleições húngaras, com o vice-presidente JD Vance participando de comícios do ultradireitista Viktor Orbán. Há possibilidade de algo similar acontecer no Brasil?
A Casa Branca tentará intervir na eleição. Há uma obsessão, em um setor desse governo, com a política brasileira, pela afinidade ideológica com o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua família. E esse quinhão irá sim usar meios políticos, de propaganda e outras iniciativas ainda não muito claras, para tentar empurrar a eleição para a direção que eles preferem. Estou pesquisando no momento justamente como o Trump 2.0 se dedica a fazer isso em escala global. Neste sentido, se assemelham aos bolcheviques.
4) De que modo?
Eles acreditam que o que percebem ser a revolução conservadora nos EUA só estará de fato segura com sua repetição em outros países. Isso não significa, no entanto, que eles são eficientes na tarefa. No Brasil mesmo, a principal tentativa anterior de interferência política direta saiu pela culatra, por conta da reação de Brasília aos tarifaços. O efeito foi o aumento da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As pessoas não gostam quando forasteiros interferem em seus processos democráticos. Na Hungria, elas torceram os narizes tanto para as ingerências do líder russo, Vladimir Putin, quanto para as do vice-presidente americano, J.D. Vance. As populações de cada país têm o direito, por elas conquistado, de eleições soberanas. Portanto, são os brasileiros que decidirão em outubro quem governa seu país, e as instituições locais devem se preparar para a defesa contra influências externas, algo benéfico a todos os cidadãos. (Com informações do jornal O Globo)