Quinta-feira, 26 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 26 de março de 2026
Os tempos andam tão carrancudos que o otimismo passou a ser visto com certa desconfiança. Não parece muito conveniente expressar esperança quando as mudanças climáticas representam uma ameaça crescente, a inteligência artificial promete refundar o mundo do trabalho tal qual o conhecemos e as guerras estão longe de serem dissipadas. Se hoje, são esses três os cavalos do apocalipse, até há bem pouco tempo a superpopulação, conjugada com a escassez de alimentos, tiravam o sono do mundo. Esse flerte permanente com o pessimismo, a par de tornar as políticas mais vigilantes, esconde, até certo ponto, a capacidade da ciência e do engenho humano superar os desafios interpostos, de uma maneira tal que em outro sentido teríamos que admitir dotados da mais extraordinária sorte. Obviamente, um olhar menos cético para o futuro, não deve ser confundido com menosprezo aos riscos, muito menos uma visão ingênua que poderia inclusive potencializar o que já é por demais perigoso.
Quem se atreveu a enfrentar os críticos e os profetas do fim do mundo foi o professor canadense, Steven Pinker, e o fez de modo tão convincente que arrancou efusivos elogios de Bill Gates, a ponto de qualificar “O novo iluminismo” como o seu livro favorito de todos os tempos. Exagerado ou não, o comentário do dono da Microsoft dá bem a dimensão da defesa entusiasmada que Pinker faz dos avanços da modernidade. Mais até do que exaltar a ciência, ele contesta, com robustas evidências históricas, o catastrofismo que ronda não apenas o senso comum, mas o jornalismo de modo geral. Por certo, isso não significa que os riscos atuais sejam desconsiderados, mas as evidências em favor da capacidade de soluções serem tempestivamente construídas confere, senão tranquilidade, um sopro de esperança nesse mar de desconsolo em relação ao futuro que a sociedade enfrenta.
Isso pode soar ainda mais paradoxal diante do recente ataque americano e israelense ao Irã, da continuada guerra na Ucrânia e todas as consequências que estão derivando desses e de outros conflitos. Contudo, até em relação às guerras, as evidências que Pinker pesquisou nos dão razões para menos ceticismo. Durante anos, na maior parte da história humana, a guerra foi o passatempo natural dos governos e a paz mero intervalo entre conflitos. Entre os anos de 1500 até 2000, a porcentagem de anos em que as grandes potências combateram entre si vem caindo sistematicamente. A pesquisa mostra que até o despontar da Era Moderna, as grandes potências praticamente viviam em guerra. Hoje, porém, apesar de alguns conflitos regionalizados, quase nunca há guerras entre elas. A mais recente opôs os Estados Unidos, a China e a Coreia, há mais de 70 anos. Do ponto de vista da frequência, duração e letalidade, após a Segunda Grande Guerra, o mundo entrou no período que foi chamado de longa paz.
Steve Pinker não ancorou sua tese otimista sobre a paz somente em dados estatísticos. Para ele, há um processo lento de contestação da guerra, enquanto continuação da diplomacia por outros meios, que contou com críticas de Pascal, Swift, Voltaire, Samuel Johnson e muitos outros grandes pensadores, todos amparados ou dentro do mesmo olhar expresso por Kant, quando da publicação da obra “Paz Perpétua”. Se esse apelo à razão pode ter de alguma forma contribuído para que os gigantes não mais guerreassem, podemos apenas especular, pois há outros elementos que podem ter contribuído para a longa paz. O comércio gentil, dando conta que países mercantis teriam menor probabilidade de lutar, juntamente com a teoria iluminista de que governos democráticos serviriam de freio a líderes inebriados pela glória que arrastariam seus países para guerras inúteis, também serviram para o otimismo de Pinker. O mundo, contudo, dá mostras sinistras de voltar a flertar com o contra-iluminismo, desafiando os pressupostos da primazia da vida, agora embalado em tecnologias que podem ser ainda mais cruéis e destrutivas do que antes, para o desalento de Steve Pinker e de todos nós.

* Edson Bündchen