Terça-feira, 05 de julho de 2022

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Pandemia ampliou risco de depressão, principalmente entre os jovens

A saúde mental do brasileiro já estava entre as piores do mundo antes da Covid-19. O Brasil lidera o ranking de casos de depressão na América Latina, com mais de 11,5 milhões de afetados pela doença. Também é o país mais ansioso, com quase 19 milhões de pessoas com o transtorno, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

A pandemia, marcada por incertezas, isolamento e perdas, ainda agravou esse cenário. Um estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) apontou crescimento de 50% nos quadros depressivos e 80% nos ansiosos nos últimos seis meses.

Esse contexto impulsionou a busca de suporte emocional, em especial por meio de tecnologias digitais. Segundo o psiquiatra Antonio de Pádua Serafim, coordenador do Serviço de Psicologia e Neuropsicologia do Instituto de Psiquiatria da USP, a ansiedade foi o principal problema apresentado por pessoas que buscaram atendimento na pandemia. Seguido por sintomas depressivos e aumento no consumo de álcool e outras substâncias.

“O medo de contágio e a morte de parentes foram os principais problemas relatados nesse período. Outras variáveis, como isolamento, risco de desemprego e afastamento do trabalho, também apareceram e formam um conjunto bem significativo de estressores”, explica.

No Brasil, a terapia online vinha ganhando adeptos nos últimos anos, mas o movimento era tímido. Na pandemia, veio a consolidação.

“Esse aumento da busca de psicoterapia foi uma forma de as pessoas romperem um pouco esse isolamento de conversar com os outros. A população precisava desse respiro de conversa”, diz.

Para atender a alta demanda de pacientes, o número de psicólogos cadastrados na plataforma e-Psi, processo obrigatório para quem quer atender online, aumentou 352% entre 2020 e 2021. Para se ter uma ideia do volume de solicitações, entre o final de 2018, quando o sistema foi criado, e fevereiro de 2020, foram cerca de 30,6 mil cadastros. De março do ano passado, quando começou a pandemia, até setembro deste ano, mais de 138 mil profissionais aderiram.

A procura também se refletiu nas startups brasileiras responsáveis por digitalizar o serviço. A Vittude, plataforma de psicoterapia virtual, registrou um aumento de 500% nos atendimentos desde o início da pandemia. Um levantamento da empresa mostrou que 70% dos pacientes são mulheres e 30% homens. A maioria tem entre 25 e 34 anos e está ingressando no mercado de trabalho. A segunda maior faixa de usuários é composta por pessoas de 18 a 24 anos, que estão deixando a escola e chegando às universidades.

Empresas

A importância de cuidar da saúde mental também chegou ao mundo corporativo. A Zenklub, plataforma de saúde emocional e crescimento pessoal, começou em 2020 com 12 clientes corporativos e 20 mil sessões mensais. Hoje, são mais de 300 corporações atendidas, incluindo Ambev, Qualicorp, Tecnisa, Loggi e Natura, e 50 mil atendimentos por mês.

Muitos profissionais e pacientes que nunca pensaram em realizar terapia online foram impelidos a aderir ao mundo digital, o que fez diminuir o preconceito. A analista de marketing Patrícia Holando é uma dessas pessoas. A jovem de 24 anos começou a fazer sessões remotas durante a pandemia. Ela gostou tanto da praticidade que agora não quer outra vida.

“Eu sempre tive preconceito com tudo o que era online. Hoje mudei minha opinião. Tem toda a questão de estar em um local seguro e confiável que é a minha casa, e a questão de poder fazer outras coisas mais relevantes, como ler, meditar e ir para academia, nas horas que eu perdia até o consultório”, conta Patrícia.

A praticidade é apontada como uma das grandes vantagens da teleterapia. Uma meta-análise realizada pela Universidade McMaster, no Canadá, avaliou 17 estudos que levaram em conta a psicoterapia por videoconferência, e-mail e mensagens de texto. Os benefícios mencionados incluem a diminuição de barreiras físicas, já que o paciente não precisa se deslocar, a versatilidade em relação ao tempo dedicado à conversa com o profissional e a amplificação do acesso.

“Você consegue fazer terapia online com qualquer profissional que você queira, rompendo as barreiras da geografia. Não preciso me limitar aos profissionais do meu bairro, da minha cidade ou país”, ressalta Tatiana Pimenta, CEO da Vittude.

Apesar da popularização, ainda há dúvidas se a psicoterapia virtual é tão eficaz quanto a presencial. Estudos realizados em vários países, incluindo Estados Unidos, Alemanha e Brasil, sugerem que a terapia online é tão eficaz quanto o atendimento face a face para os pacientes, especialmente a longo prazo.

Um trabalho da Universidade de Minnesota revela que, além de ser tão eficiente quanto, ainda sai mais barato, tanto para terapeutas quanto para pacientes. No Brasil, uma sessão no consultório custa, em média, R$ 258,22. A versão online fica em torno de R$ 90.

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