Sexta-feira, 09 de janeiro de 2026

Papéis podres do extinto Banco do Estado de Santa Catarina alimentaram esquema de operações fraudulentas atribuídas ao Banco Master

Boa parte dos ativos podres comprados por fundos de investimentos da gestora Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. para sustentar o esquema de operações fraudulentas atribuídas ao Banco Master é composta por certificados de ações do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina).

Chamados de cártulas, esses papéis são um documento físico que representa uma ação do antigo Besc, que foi incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Esses certificados em papel comprovavam a posse de ações do banco por investidores.

Os gestores dos fundos compravam esses títulos, que têm valor baixo, como se valessem milhões para inflar esses fundos, justificando retiradas para investimentos em outros fundos também da Reag. A suspeita é que esses recursos que passaram pelos fundos tenham sido desviados para “laranjas” ligados ao dono do Master, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

A assessoria da Reag informou que a gestora foi vendida para a Arandu Investimentos (em outubro) e que os questionamentos devem ser respondidos pelo novo controlador, ainda que digam respeito a operações feitas no passado (entre 2023 e 2024). A Arandu também foi contatada, mas não respondeu. O Master não se manifestou.

De acordo com um investigador do caso, ouvido pela reportagem na condição de anonimato, os ativos podres passavam de um fundo para outro no mesmo dia, numa fraude considerada “grosseira” via uma espécie de ciranda financeira.

O investigador disse que essas cártulas, que “não valem nada”, eram adquiridas pelos fundos com valores supervalorizados. O problema é que esses ativos não têm liquidez nem poderiam ser precificados da maneira como foram.

O Banco Central acionou o MPF (Ministério Público Federal) após identificar indícios de fraude em negócios do banco de Vorcaro com fundos sob gestão da Reag.

O esquema, de acordo com a denúncia do BC, envolveu R$ 11,5 bilhões que foram lavados por meio desses fundos. O órgão regulador pediu ao MPF o congelamento dos recursos.

A denúncia trata de atos que ocorreram entre julho de 2023 e julho de 2024, antes da venda das carteiras de crédito podres relatada na primeira denúncia feita pelo BC, que embasou a prisão de Vorcaro em novembro passado.

As investigações apontam que o esquema começava por meio de operações de crédito, com valores de até R$ 500 milhões, do Master para empresas que supostamente estão ligadas ao sistema de desvio de dinheiro.

Como as empresas que contraíram o financiamento do Master não investiram o dinheiro tomado no negócio delas – o que elas fizeram foi desviar o dinheiro para os fundos –, os empréstimos eram feitos com prazo de carência de quatro anos para não revelar a falta de amortização da dívida.

O problema para o Master começou a aparecer a partir da crise de confiança que a instituição passou a enfrentar, sobretudo, no último trimestre de 2024.

O banco começou a ter dificuldade de captar dinheiro novo via CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) e a enfrentar falta de liquidez para pagar as dívidas velhas que iam vencendo.

A partir daí, em vez de lançar mão da venda ativos para levantar recursos, o Master começou a fabricar ativos falsos de crédito consignado, que foram vendidos ao BRB, banco do Distrito Federal. Pela denúncia feita pelo BC ao MPF, essas transações somaram R$ 12,2 bilhões. (Com informações da Folha de S.Paulo)

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