Domingo, 21 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 20 de junho de 2026
O memorando de entendimento assinado pelos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Irã, Masoud Pezeshkian, deixou evidentes as consequências políticas, militares e econômicas da decisão mal calculada de atacar o Irã em 28 de fevereiro.
O custo humano já é claro. Milhares de pessoas morreram, muitas delas civis, no Irã e no Líbano.
Os EUA, e por extensão Israel, sofreram uma derrota estratégica. O regime em Teerã enfrentou seu pior pesadelo: uma operação militar conjunta para incapacitá-lo ou destruí-lo conduzida pelos EUA, a potência mais forte do mundo, e por Israel, a superpotência do Oriente Médio. O regime não apenas sobreviveu. Ele saiu fortalecido.
Sua estratégia de bloquear o estreito de Ormuz – e com isso um quinto do fornecimento mundial de petróleo e gás, além de outros componentes vitais da economia global – forçou Trump a concordar com uma série de concessões que enfureceram e alarmaram os críticos mais duros do Irã nos EUA e o governo israelense.
O memorando de entendimento — ou MOU, na sigla em inglês — prevê o fim da guerra no Líbano, mas Israel diz que isso não pode acontecer. Os israelenses querem ter liberdade de ação no Líbano, e essa questão pode provocar uma ruptura ainda maior entre Israel e os EUA, além de favorecer os setores mais radicais do Irã que se opõem a qualquer acordo com os americanos.
Em troca da reabertura do estreito, o texto do MOU afirma que os EUA irão suspender seu bloqueio aos portos iranianos, flexibilizar sanções permitindo ao Irã ganhar bilhões de dólares com exportações de petróleo e iniciar o processo de devolução de bilhões em dinheiro ao Irã, por meio do descongelamento de ativos mantidos no exterior.
Isso tudo antes mesmo de EUA e Irã entrarem no difícil processo de negociar um acordo nuclear. É o preço pago para se voltar à situação de 27 de fevereiro, o dia anterior ao lançamento da guerra pelos americanos e israelenses. Naquele dia, o estreito de Ormuz estava aberto à navegação e negociadores americanos e iranianos discutiam um acordo nuclear.
A assinatura do MOU significa que as negociações serão retomadas e os navios poderão transitar pelo estreito de Ormuz.
Erro de Trump
O secretário de Estado de Joe Biden, Antony Blinken, publicou no X: “o único ‘‘resultado’’ do cessar-fogo é a provável reabertura do estreito de Ormuz – que já estava aberto antes do início da guerra. E aparentemente pagaremos ao Irã por isso.”
A questão de para que exatamente serviu a guerra é inevitável e não desaparecerá. Trata-se do maior erro de política externa de Trump até agora.
Pode também significar o fim da longa carreira política do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Ele enfrenta eleições em outubro e um acerto de contas com os eleitores israelenses por seu papel nas falhas de segurança – as piores da história de Israel – que permitiram que o sistema militar e de inteligência do país não detectasse o plano do Hamas de invadir Israel a partir de Gaza em 7 de outubro de 2023.
As políticas militares de linha dura de Netanyahu e seu desprezo pela diplomacia foram concebidos, pelo menos em parte, para restaurar sua reputação como o “Senhor Segurança” de Israel.
Estreito de Ormuz
Teerã sempre esteve ciente do potencial de poder de fechar o estreito de Ormuz. O mesmo ocorria com os militares dos EUA, seus diplomatas e seus serviços de inteligência. Mas o antigo líder supremo do Irã, Ali Khamenei, um homem idoso e cauteloso, optava por não correr o risco de usar o estreito como arma.
Depois que Israel o matou, junto com seus conselheiros mais próximos, nas primeiras operações de bombardeio da guerra, seus sucessores acreditaram, corretamente, que estavam em uma luta existencial e não hesitaram em fechar o estreito.
Eles descobriram o poder de controlar um ponto de estrangulamento da economia global. É uma arma muito mais utilizável, e muito mais barata, do que a rede de aliados e intermediários em que investiram décadas e bilhões para construir no Oriente Médio. (As informações são da BBC)