Terça-feira, 16 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 15 de junho de 2026
A 3ª Delegacia de Polícia de Canoas (Região Metropolitana de Porto Alegre) deflagrou a segunda fase de operação contra maus-tratos a animais, estelionato e associação criminosa. São alvos da ofensiva uma ex-secretária municipal e ativista da proteção animal, além de duas veterinárias, todas investigadas por esquema de eutanásia fraudulenta de cães e gatos para desviar valores angariados via pix para tratamentos jamais realizados.
Foram cumpridas três ordens de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão. Além de telefones celulares, computadores e outras provas destinadas à continuidade da apuração, os agentes recolheram um cão sem as patas dianteiras e debilitado, utilizado para pedidos de ajuda financeira em postagens nas redes sociais.
“Segundo apurado, os animais resgatados eram encaminhados para eutanásia em situações em que ainda havia alternativas de tratamento”, ressalta a Polícia Civil gaúcha.
As investigações que culminaram na primeira fase da operação, deflagrada em 4 de setembro de 2025, tiveram como foco a Secretaria Especial de Bem-Estar Animal de Canoas. Naquela ocasião, foram cumpriu mandados de busca e apreensão, incluindo a sede do órgão, a residência da investigada, um sítio onde está registrado o “Instituto Nacional de Proteção Animal” e a casa de uma das veterinárias.
“Após análise de todo o material apreendido, a constatação inicial foi alarmante”, acrescenta a Polícia Civil. “O número de eutanásias no local realmente estava muito acima do esperado para o perfil dos animais recolhidos e também em relação aos anos anteriores. Usuários do serviço e agentes da Secretaria foram os primeiros a alertar a Polícia sobre os fatos.”
De acordo com o apurado, a “protetora” atuava desde 2020, com 549 vaquinhas realizadas, sendo que o Instituto já recebeu de um total de quase 15 mil pessoas o montante de R$ 672,6 mil em contribuições. A Polícia Civil gaúcha continua a investigação, a fim de levantar aspectos como o número de animais vitimados pelo que os agentes têm chamado de “eutanásia financeira”.
A delegada Luciane Bertoletti fala de pormenores do esquema: “Estamos agora buscando registros de microchip de todos os animais que sumiram para, quem sabe, tentar identificar quantos foram sacrificados”.
Avanço
Na operação dessa segunda-feira (15), a Polícia Civil gaúcha intensificou a ação contra a estrutura que operava “fora dos muros” da Secretaria. O aprofundamento da análise do conteúdo apreendido até então confirma, segundo a corporação, a relação direta da principal investigada com esses profissionais.
Em um dos casos apurados, uma das veterinárias comunicou a possibilidade de que um cão estava com sinomose e perguntou se seria feito o teste antes de qualquer decisão. A resposta atribuída à ex-secretária foi de autorização para prosseguir com a eutanásia, sem confirmação diagnóstica prévia da doença. Os investigadores apontam que isso contrasta com a prática clínica recomendada, já que a cinomose depende de exame específico para confirmação.
A apuração também identificou que, na mesma data, a investigada teria divulgado pedido de apoio financeiro nas redes sociais para custear o suposto tratamento do mesmo animal, enquanto autorizava nos bastidores a eliminação do “pet”. Para os policiais, esse contraste reforça a suspeita de que havia arrecadação de recursos associada a uma narrativa pública de cuidado que não correspondia ao destino efetivo do animal.
“A investigada, que nas redes sociais ostentava fotos de animais com deficiência que ‘adotava’ e ‘salvava’, valia-se dessa fachada para legitimar suas captações”, reforça a Polícia Civil. “A exoneração do cargo de Secretária não desmobilizou o esquema, que continuou a operar sob a guarda de sua ‘associação’ no sítio.”
Diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana de Canoas, o Delegado Cristiano Reschke enfatiza a gravidade da exploração da confiança pública e a crueldade do esquema:
“Desvendamos um cenário de crueldade extrema e manipulação perversa da solidariedade pública. A investigada não apenas decidia pela morte deliberada de animais que poderiam ser salvos, como usava o sofrimento dessas criaturas como isca emocional para um esquema de estelionato. É estarrecedor constatar que, enquanto o público doava recursos acreditando financiar a cura e o bem-estar, nos bastidores, a ordem era a eliminação sumária para maximizar o lucro”.
(Marcello Campos)