Terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 24 de fevereiro de 2026
Uma pílula tripla com drogas que combatem a hipertensão demonstrou a capacidade de reduzir em 39% o risco de novos episódios de qualquer tipo de acidente vascular cerebral (AVC). O estudo foi realizado no Brasil com pacientes que tiveram AVC hemorrágico. A pesquisa do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), e coordenada pelo The George Institute for Global Health, da Austrália, investigou a polipílula em complemento ao tratamento padrão e constatou que, na prevenção da recorrência de AVC hemorrágico, a possibilidade de um novo evento teve queda de 60%.
“O Trident foi um dos grandes destaques do Congresso Mundial de AVC, realizado em Barcelona. O nome, que significa Triple Therapy Prevention of Recurrent Intracerebral Disease Events Trial, avaliou se uma combinação de três medicamentos anti-hipertensivos em doses baixas — telmisartana, amlodipina e indapamida — poderia reduzir o risco de um novo AVC em pacientes que já haviam tido uma hemorragia cerebral (AVC hemorrágico)”, explica o coordenador da Rede Nacional de Pesquisa em AVC e professor da Universidade de São Paulo (USP), Octávio Pontes Neto, ao Jornal da USP.
De acordo com o médico, controlar a pressão arterial é a medida mais eficaz para evitar recorrência de AVC, especialmente após uma hemorragia intracerebral. Porém, muitos pacientes não conseguem manter o controle adequado da pressão com os esquemas tradicionais — seja por baixa adesão, medo de efeitos colaterais ou dificuldade de ajuste das doses.
“A ideia do Trident foi justamente simplificar o tratamento, oferecendo uma pílula única com três drogas em doses pequenas, o que poderia melhorar tanto o controle da pressão quanto reduzir o risco de um novo evento vascular grave. Os resultados foram muito animadores. Após cerca de três anos de acompanhamento, os pacientes que receberam a pílula tripla tiveram uma redução de cerca de 50% no risco de um novo AVC em comparação com o grupo placebo. Além disso, houve uma queda média de 9 mmHg na pressão sistólica e os efeitos se mantiveram consistentes entre diferentes países e faixas etárias”, afirma Octávio Pontes Neto.
A HIP (Hemorragia Intraparenquimatosa Aguda), conhecida também como AVC hemorrágico (AVCh), é a forma mais grave e menos tratável do AVC, representando cerca de 10% dos 12 milhões de novos casos no mundo (por ano), revelam dados do Global Burden of Disease. Além disso, o AVCh tem alto risco de recorrência. Aproximadamente dois terços dos pacientes pós-AVCh vão a óbito ou ficam incapacitados dependentes de outras pessoas para os cuidados básicos. Segundo o Hospital Moinhos de Vento, os medicamentos anti-hipertensivos que compõem a polipílula estão regulamentados e são comercializados no Brasil isoladamente.
“Esta pesquisa inovadora está prestes a transformar a prática clínica em todo o mundo. Os resultados certamente irão mudar diretrizes internacionais. Estamos moldando um futuro com menos AVCs e onde a pesquisa realmente transforma vidas”, disse a médica neurologista Sheila Martins, que também coordenou o estudo no País.
O Brasil registra cerca de 258 mil novos casos de AVC a cada ano, sendo a segunda principal causa de morte e a principal de incapacidade no país. O número de novos casos de AVCh é de aproximadamente 50 mil. Destes pacientes, 80% são atendidos no Sistema Único de Saúde. O Trident se propôs a determinar a eficácia de um tratamento intensivo para redução da pressão arterial em pacientes que já tiveram um AVCh por meio da utilização de uma polipílula de baixo custo.
“A polipílula tem a possibilidade de evitar centenas de casos de AVC hemorrágico, reduzindo morbidade, tempo de internação, gastos com saúde e impactos no SUS”, conclui a médica do Hospital Moinhos de Vento.